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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

 

 Durante longos anos a cronologia, datação e efemérides importantes na ciganologia brasileira sempre foram negativas como a proibição do uso da língua e gíria, não permitindo que fossem ensinadas às crianças ciganas, a fim de obter a sua extinção (In Melo Morais Filho, Os ciganos no Brasil), proibição do uso dos trajes ciganos, negócios de bestas e outras imposturas (ler sina) etc.
En
tretanto, depois de 428 anos da chegada do primeiro cigano ao Brasil, no dia 13 de Maio de 2002 o governo brasileiro reconheceu que os ciganos mereciam respeito e o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH II) incluiu (graças aos esforços da Apreci -Associação de Preservação da Cultura Cigana, no Paraná), pequeno texto mencionando o Povo Cigano. Aliás, das 518 propostas instituídas pelo Decreto 4229, apenas 6 tratam do Povo Cigano.

São elas:

- Promover e proteger os direitos humanos e liberdades fundamentais dos ciganos.
- Apoiar a realização de estudos e pesquisas sobre a história, cultura e tradições da comunidade cigana.
- Apoiar projetos educativos que levem em consideração as necessidades especiais das crianças e adolescentes ciganos, bem como estimular a revisão de documentos, dicionários e livros escolares que contenham estereótipos depreciativos com respeito aos ciganos.
- Apoiar a realização de estudos para a criação de cooperativas de trabalho para ciganos.
- Estimular e apoiar as municipalidades nas quais se identifica a presença de comunidades ciganas com vistas ao estabelecimento de áreas de acampamento dotadas de infraestrutura e condições necessárias.
- Sensibilizar as comunidades ciganas para a necessidade de realizar o registro de nascimento dos filhos, assim como apoiar medidas destinadas a garantir o direito de registro de nascimento gratuito para as crianças ciganas

Então...
Nada, mas nada mesmo aconteceu. Ficou no papel...rs

 

 Segundo Frans Moonen, em seu livro Anticiganismo e Ciganos no Brasil, "muitos ciganólogos têm observado que os ciganos Rom, e entre eles em especial os Lovara e os Kalderash, costumam auto classificar-se como ciganos “autênticos”, “verdadeiros”, “nobres”, “aristocratas”, de primeira categoria, sendo todos os outros apenas ciganos “espúrios” ou “falsos” ciganos.
Infelizmente, esta at
itude discriminatória (dos próprios ciganos) é assumida também por muitos gadjé que realizam estudos ou trabalhos práticos entre os ciganos, ou por legisladores ou membros de organizações ciganas e pró-ciganas. Sabendo disto, muitos ciganos se dizem Rom, ou Kalderash, embora sem nunca ter sido. Okely, por exemplo, informa que na Suécia, “ciganos originários da Polônia, sem prévias pretensões de serem Kalderash, adotaram nomes kalderash quando de sua chegada na Suécia porque a estas pessoas é atribuído um status exótico e favorável pela sociedade dominante. De fato, Tattares [nômades não-ciganos] são excluídos de lucrativos programas sociais. Parece que também em outros países da Europa, por exemplo na Bélgica, França, Holanda e Alemanha, grupos ou ‘tribos’ que se apresentam como Rom, Kalderash ou Lovari têm mais probabilidade de serem considerados de origem oriental, indiana, e de receberem status ‘real’, mesmo que só por estudiosos e representantes políticos gadjé” (Okely 1983: 10-11).
Mas como se isso não bastasse, OS CIGANOS AINDA DE DISCRIMINAM MUTUAMENTE também por outro motivo: os ciganos sedentários muitas vezes olham com desprezo para os ciganos nômades que persistem nesta vida “primitiva”, enquanto os nômades acusam os sedentários de terem abandonado as tradições e com isto terem deixado de ser ciganos.
E com isto surgem intermináveis debates, entre os ciganólogos, sobre quem é cigano autêntico e quem não é. Debates, por sinal, estéreis, porque definir quem é e quem não é cigano é, de fato, uma tarefa impossível porque não existem critérios objetivos universalmente aceitos ou aceitáveis.
Ao chegarem na Europa Ocidental, no início do Século XV, os ciganos ainda podiam facilmente ser identificados através de sua aparência física, sendo a característica mais marcante a sua pele escura. Hoje isto já não é mais possível. Apesar da ideologia da endogamia, casamentos com não-ciganos sempre ocorreram, de modo que em muitos países hoje os ciganos fisicamente não se distinguem da população gadjé nacional. Ciganos ‘racialmente puros’ hoje não existem mais em canto algum do mundo, e nunca existiram, porque nunca existiu uma ‘raça’ cigana. Impossível, portanto, identificar os ciganos através de características físicas peculiares ou estabelecer ‘critérios biológicos de ciganidade’.
Classificar como ‘verdadeiros’ ciganos todos aqueles que falam uma língua cigana também não adianta, porque muitos ciganos já não a falam mais e outros a dominam muito mal, ou até já a esqueceram por completo. Muitos autores, de várias partes do mundo, afirmam que mesmo entre si os ciganos costumam falar a língua do país em que vivem e que a língua cigana, na maioria das vezes, costuma ser usada apenas ocasionalmente, quando necessário. San Román, por exemplo, informa que na Espanha, “excluindo os ciganos nômades, poucos conhecem [a língua] caló, e recorrem a ela principalmente na presença de payos [a palavra espanhola para não-ciganos] que desejam enganar, e dos quais querem distinguir-se. (...) [A língua caló] não é tanto um meio de comunicação, mas antes um meio para excluir os payos dos assuntos ciganos. Entre si falam espanhol” (San Roman 1979: 171, 191)."

Quem quiser saber mais peça o livro enviando um e-mail para
acerci@uol.com.br.


 
Não existe no Brasil uma política pública sequer que seja voltada e beneficie os ciganos e as ciganas brasileiros. E estamos aqui desde 1574...
Somente no dia 13 de maio de 2002 é que decidiram que existimos. Mesmo assim, só no papel...rs. Vejamos:
...


13 de maio, 2002 . Até que enfim! Após 428 anos o governo brasileiro reconhece que os ciganos merecem respeito, são cidadãos. O Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH II) inclui (graças aos esforços da Associação de Preservação da Cultura Cigana, no Paraná), pequeno texto sobre este povo. Vamos citar os tópicos relativos a eles para que não se esqueçam:

Ciganos
259. Promover e proteger os direitos humanos e liberdades fundamentais dos ciganos.
260. Apoiar a realização de estudos e pesquisas sobre a história, cultura e tradições da comunidade cigana.
261. Apoiar projetos educativos que levem em consideração as necessidades especiais das crianças e adolescentes ciganos, bem como estimular a revisão de documentos, dicionários e livros escolares que contenham estereótipos depreciativos com respeito aos ciganos.
262. Apoiar a realização de estudos para a criação de cooperativas de trabalho para ciganos.
263. Estimular e apoiar as municipalidades nas quais se identifica a presença de comunidades ciganas com vistas ao estabelecimento de áreas de acampamento dotadas de infraestrutura e condições necessárias.
264. Sensibilizar as comunidades ciganas para a necessidade de realizar o registro de nascimento dos filhos, assim como apoiar medidas destinadas a garantir o direito de registro de nascimento gratuito para as crianças ciganas.

Foi pouco, mas....
E vamos que vamos. Continuamos excluídos apesar do que está no livrinho dos Direitos Humanos. Ufa!

Família Cigana

 
O conceito de família, para o povo cigano, é amplo. Reúne vários casais com os respectivos filhos e diversas gerações; engloba os descendentes (filhos e netos), ascendentes (avós, bisavós) e os colaterais (primos e tios). O nome é o que está nos papéis legais e vale para a sociedade, mas é o apelido (para alguns grupos o chamado nome de sopro), geralmente, que identifica uma pessoa cigana.
O elo mais forte da ligação entre grupos ciganos é a família nuclear. Pelas dificuldades encontradas no decorrer da vida ocorrem muitos óbitos e o povo cigano, com o auxílio da mãe natureza, repõe, surpreendentemente, os entes queridos e assim aumentam a prole.
Muitas famílias reunidas formam uma Kumpania. Não são necessariamente unidas entre si por laços de parentesco, mas todas pertencem ao mesmo grupo ou subgrupo afins.
É preciso que se deixe evidente que o que realmente conta, em primeiro lugar, é a família ou núcleo composto por marido, mulher e filhos.
Porque existem pessoas, ciganas ou não, a delirar...deixemos claro que não existem e nunca existirão reis nem rainhas dos ciganos, assunto predileto de jornalistas levianos e desinformados.
 

 

 O Mapa Cultural Cigano, que agora virou moda rascunhar, nem mesmo o Povo Cigano consegue ler com exatidão. Aliás, nenhum cigano ou cigana conhece todos os detalhes de sua identidade.
Assim sendo, o que pensar de payos (não ciganos) que saem por aí a se proclamarem conhecedores da cultura cigana? Costumam falar dos ciganos de forma genérica, como se existisse apenas uma cultura única, ...
sem conseguirem abordar o caráter diferencial de cada comunidade cigana.
Segundo Rodrigo Correa Teixeira, em sua História dos Ciganos no Brasil, "quando os autores se cansam das individualidades esboçam a unidade (frágil e talvez inexistente) de múltiplos ciganos". Tanto o historiador quanto o ciganólogo escrevem como se todos os ciganos e ciganas fossem apenas um ou uma só (o cigano típico ou o cigano genérico).
Portanto, é preciso considerar que a identidade cigana foi flexibilizada conforme as transformações conjunturais pelas quais passou ou teve que enfrentar.
Resumindo: os ciganos não formam uma totalidade homogênea; não são linguística, econômica, cultural e socialmente iguais.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

 
Aqui no Brasil pouquíssimas famílias Sinti são conhecidas e pouco ou quase nada sabemos sobre as mesmas. Segundo informações fornecidas por Rodrigo Corrêa Teixeira, em seu livro História dos Ciganos no Brasil, dados oficiais de 1819 a 1959 informam que migraram para o Brasil 5,3 milhões de europeus, dos quais 1,7 milhão de portugueses, 1,6 milhão de italianos, 694 mil espanhóis; 257 mil alemães e 125 mil russos. No desembarque registrava-se apenas a nacionalidade do imigrante e não a sua identidade étnica. É mais do que provável que no meio dos quase dois milhões de imigrantes italianos e alemães também tenham vindo ciganos Sinti, principalmente durante e após a II Guerra Mundial.

A título de esclarecimento. Para o Brasil vieram os três grupos ciganos existentes. Kalon, vindos da Península Ibérica; Rom, vindos do leste europeu e Sinti, oriundos da Alemanha, Itália e França.

 
No livro Os Ciganos do Brasil, de Melo Morais Filho (capítulo 7, p. 67) encontramos um estudo psicológico (do povo cigano) que explica:

"As mulheres Kalin, no infortúnio, são sublimes: a sua Fé olha para o infinito e não empalidece; e a sua esperança, resguardando a âncora, não receia o abismo.
Os ciganos não se separam, unem-se; não se divertem, aborrecem-se; não discutem, resmungam, queixam
-se, monologam consigo.
Reconhecidos ao mais fútil benefício, as suas demonstrações revestem-se de aparato declamatório, de expansões largas.
Entre si não se exploram, protegem-se; não se difamam, exaltam-se: ─ são francos, bem-intencionados, caridosos.
As ciganas nunca se separam de seus filhos pequenos, nem se descuidam dos desvalidos, aos quais abrem coração materno. Conhecemos uma que é a Providência de duas criancinhas a quem estremece, e ensina todas as noites a orar por aquele que já está no céu".

 
O Povo Cigano não é, absolutamente, homogêneo. Embora diferentes, mas não desiguais em relação à sociedade brasileira, existe certa desigualdade entre os ciganos. Nem todos são linguística, econômica, cultural e socialmente iguais.
O Povo Cigano vive num mundo em que a sociedade se organiza a partir de perspectivas diferentes das suas. Assim sendo, é necessário absorver o patrimônio cultural do ou
tro (payos) e, de forma nada fácil, viver na intimidade as suas tradições e práticas culturais.
Dessa forma, pessoas de etnia cigana vivem a criar e recriar, continuamente, um aprendizado que lhes proporcione condições necessárias para a sua sobrevivência. Esse movimento em direção às sociedades não ciganas e às estratégias criadas para sobreviver demonstra extraordinária capacidade de flexibilizar e mediar as mais notáveis diferenças culturais.
Bom seria que esse tema fosse debatido durante as reuniões promovidas pelo governo, que fica o tempo todo a devanear sobre ações, nem sempre assertivas, e prováveis políticas públicas jamais efetivadas. Ufa!



Antigamente, as ciganas costumavam ser consideradas bruxas. Em 1427 o bispo de Paris mandou excomungar todos os parisienses que tinham consultado as ciganas. Hoje, os bispos costumam ser um pouco mais tolerantes, e consultar uma cigana não é mais motivo para excomunhão, embora muitos padres e pastores ainda o considerem um pecado. Na realidade, as ciganas fazem nada mais nada menos (embora bem mais barato) do que fazem os psicólogos e psicanalistas nos seus luxuosos consultórios.
Frans Moonen
 
 
A defesa dos direitos e interesses ciganos é difícil e complexa. Infelizmente a bibliografia sobre ciganos no Brasil é ínfima e não passa de alguns ensaios científicos, pois são poucos os antropólogos e outros cientistas a pesquisar os seus usos e costumes.
Os ciganos brasileiros não podem contar com um órgão governamental e uma legislação específica em defesa dos seus direitos e interesses, uma vez que não existem. Ao contrário dos índios, os ciganos não são mencionados na Constituição Federal. É a minoria das minorias, o elo mais frágil da corrente que os atrela aos preconceitos e discriminação no Brasil.
É preocupante o futuro das crianças ciganas brasileiras. Muito.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

 
"Quando dois não-ciganos falam de ciganos, a imagem mais estereotipada que vem à mente deles, no mínimo, é de mulheres com vestes estampadas, esvoaçantes, cabelos trançados, moedas como berenguendém etc., nas esquinas das avenidas e ruas de grandes cidades, chamando as pessoas para leitura da buena-dicha. Esta ainda é a mais aceitável imagem que fazem. Nas outras imagens, os põem num... quadro onde se vê, na melhor das hipóteses, pessoas perigosas que devem ser evitadas. Ora, ciganos não são bicho-papão, não andam assaltando por aí, não traficam, nem roubam criancinhas. Não querem sua casa, nem seus bens. Ciganos são o povo mais pacífico da terra. Não se conhece na história universal um só relato onde ciganos tenham apanhado armas e se voltado contra outros povos. Mas que povo é esse? Na verdade, as origens desse povo são obscuras. Hoje, estudos antropológicos, etnográficos e DNA têm levado os pesquisadores de todos os ramos, das múltiplas ciências, a concordarem que os ciganos vieram da Índia. Por que saíram de lá? Ninguém sabe. Especula-se que seriam as invasões mongólicas, ou dos hunos, ou dos árabes; conjugadas com algum período de longa seca ou de chuva continuada. Mas o certo é que se estabeleceram no Egito [daí o nome egípcios e mais tarde egipcianos, por fim gitanos]".


Texto da Obra de Assede Paiva
CIGANOS, TZIGANOS, GITANOS, BOÊMIOS,ZÍNGAROS... QUEM SÃO ELES?



“Ciganos foram caçados como bestas selvagens, enterrados vivos nos pântanos, suspensos vivos sobre defumadores. Acusados, torturados e condenados. Foram empalados, queimados, esquartejados, decapitados, por crimes que jamais cometeram. Ainda hoje, embora sem torturas, são acusados de tudo de mau que acontece em qualquer cidade. São obrigados a morar em lixeiras, não tem acesso a qualquer benefício/assistência social. É uma luta diuturna pela sobrevivência”.

Assede Paiva - Ciganos na História do Brasil
 
Que o Povo Cigano jamais se acostume à ciganofobia...

Problemas Gerais enfrentados pelos Ciganos Brasileiros

 
PROBLEMAS GERAIS ENFRENTADOS PELOS CIGANOS NO BRASIL
Ge Vitor

• Acessibilidade a documentos de identificação civil obrigatórios. O nomadismo serve como um dos pretextos mais recorrentes, sobretudo nos cartórios, para dificultar e às vezes impedir o registro oficial dos dados pessoais dos ciganos. Ou seja, em termos legais a pessoa cigana - por não portar documentos - não existe. Em assim ...
sendo, há que se considerar que suas práticas de trabalho, moradia e inclusive as comerciais de sobrevivência, sejam adaptadas à sua “falta” de condição civilizatória, estando “naturalmente” fora dos padrões sociais legais. Daí a associação à marginalidade. Outro agravante dessa inexistência documental se revela na inexistência ou inexatidão do número de ciganos existentes no Brasil. Pesquisas aleatórias e não oficiais dão conta de que existem hoje entre 650 mil e 1.2 milhões ciganos, constituindo diversos grupos étnicos distintos. Também são inexatas as informações sobre os ciganos considerados civilizados porque muitos deles, ainda que preservem suas línguas e tradições, não assumem ou foram levados a não assumirem seus traços identitários, em geral, como última condição essencial de civilidade ante as discriminações.
• Acessibilidade a saúde pública. Por consequência dos princípios (a tradição cigana prevê o nascimento dos filhos nas próprias tendas) e do tratamento público indevido, a mãe cigana acaba não tendo acesso ao cartão “oficial” hospitalar onde são registrados os dados preliminares de identificação dos seus filhos. Esse cartão figura obrigatório para outros documentos como a certidão de nascimento, RG, etc. A falta do Cartão os impede legalmente de terem acesso, também, a documentos secundários que lhes dariam direito a utilizarem outros serviços públicos - inclusive os essenciais básicos - como atendimento emergencial em prontos-socorros, vacinação, etc.
• Acessibilidade ao ensino público e permanência na escola. Não raro as crianças ciganas veem negado seu direito de se matricular e frequentar escolas, por causa da sua tradição familiar e das maneiras próprias e peculiares de viver e se relacionar. Não obstante essas dificuldades, a criança cigana quando matriculada, enfrenta ainda outros conflitos relacionados à sua tradição. Embora possuam idioma e dialetos próprios os ciganos tradicionais são considerados ágrafos por não se utilizarem de símbolos gráficos (letras e números) para sua comunicação e para a transmissão de conhecimentos tradicionais, o que geralmente é feito pela prática da oralidade. Faz-se necessário pensar e instituir um modelo ou recorte na política educacional atual que permita atender às especificidades das comunidades ciganas, no que se refere à ortografia e linguística, currículos, materiais didático-pedagógicos e conteúdos programáticos, observando e implementando-se os preceitos da Declaração Mundial sobre Educação para Todos.
• Acessibilidade para instalação de equipamentos e permanência em espaços urbanos. Não existem orientações por parte dos poderes públicos ou gestores dos espaços e da segurança pública, bem como atos legais prevendo e assegurando direito aos ciganos para estacionarem suas caravanas e estabelecerem seus acampamentos provisórios, sem serem molestados por polícias e por autoridades locais. Na maioria dos casos a dificuldade do acesso ao espaço público está claramente associada à discriminação ou à intolerância, dadas as condições precárias oferecidas; à imposições rígidas de comportamento e trânsito social e; a exigências - às vezes abusivas – de alvarás, impostos, taxas, etc.
• Inclusão social e cultural. Os valores culturais são desconhecidos e desrespeitados. Por isso, frequentemente são vítimas de preconceitos. O desconhecimento generalizado sobre as origens, costumes e direitos ciganos, faz com que sejam rotulados e tratados com estereótipos. Ou seja, equivale dizer que, o ser cigano associa-se muitas vezes a sinônimo de marginalidade. Esse ranço histórico além de cultivado é ampliado e agravado, inclusive - pela literatura - em torno de estórias e histórias vividas ou imaginadas. Assim como os judeus, índios e negros, os ciganos sofrem - dia a dia - a discriminação social e cultural.
• Preservação das tradições, das práticas e do patrimônio cultural. Os shows e espetáculos mambembes, a prática de artesanatos tradicionais como ourivesaria e utilitários em metal e cobre, estão desaparecendo frente às realidades já abordadas e comentadas. A livre circulação de espetáculos, referência simbólica da prática teatral brasileira, hoje se vê quase que inviabilizada, seja pela massificação da indústria cultural, seja pela falta de incentivos públicos e privados. As memórias e referências culturais ciganas, tradicionalmente cultivadas e guardadas em baús intocáveis nos interiores das tendas, estão se perdendo por falta de uma política de ações de acessibilidade pública, proteção e catalogação desse rico acervo. No campo literário, não existem publicações sobre os ciganos, quando muito são citados de forma pejorativa. No cinema e na televisão, a situação se repete, sendo – às vezes - suavizada pela beleza e práticas exóticas tradicionais da cultura cigana. Nesse sentido, faz- se urgente o estabelecimento de processos de recuperação e resgate dos conhecimentos, da autoestima, dos saberes e fazeres tradicionais das culturas ciganas.

 
 
Olhar Cigano

"O que impressiona em primeiro lugar num cigano é o seu olhar. Nem o vestuário, nem a tez, nem a língua e os costumes denunciam melhor o cigano do que os seus olhos e o olhar. Os olhos são escuros, sobretudo na mulher, e largamente fendidos. É impossível descrever o olhar. De Dumas, a Merimée, a Garcia Lorca, todos disseram verdade. O brilho do olhar é exaltado, sobretudo nas rapa
rigas. É ao mesmo tempo inquieto, penetrante quando se fixa, móvel, constantemente espiando, pois é a arma mais preciosa do cigano, que lhe permite ver e prever. Reflete, ao mesmo tempo, a doçura e a selvageria, uma imensa bondade e uma crueldade sem limites. Um olhar sempre fugidio, mas apesar disso se fixa aqui e acolá, num certo instante. Um olhar triste e altivo, amoroso e duro. Um olhar cheio de paixão, mas duma paixão contida, retida entre as pálpebras que deixam passar um estilhaço metálico, magnético, saltando de olhos paradoxalmente enevoados, velados, coalhados como mortos."
Olimpio Nunes


 

“Imagine um mundo em que as pessoas não tenham endereço fixo, documentos, conta em banco, carteira de trabalho assinada, nem história. E que a vida dessas pessoas passe despercebida, como se não existisse. Que a única certeza é que nunca faltarão preconceito e ignorância, medo e fascínio, injustiças e alegrias ao longo de sua interminável jornada. Bem vindo ao mundo dos ciganos nômades”.
Luciano Marsiglia em A Saga Cigana.

Ação

 
Cada vez mais se faz necessária uma ação dos ciganos nômades brasileiros: tornarem-se disponíveis para dizer quem são, como pensam, no que acreditam. Só assim o Estado Brasileiro deverá olhar para seus filhos, até então ilegítimos, com o carinho de uma Mãe Gentil.
Mas como? Alguém tem ideia?
Fazemos palestras, participamos de seminários, etc. E daí?
Os políticos brasileiros, infelizmente, ainda nã
o perceberam que seus filhos ilegítimos querem abrigo e, sobretudo, conversar franca, verdadeira e honestamente sobre a fundamental importância de uma real inclusão social. Não pela assimilação e sim pelo respeito à diferença.
Alguém duvida de que o reconhecimento da grande Mãe Gentil pelos seus ciganos será um grande passo histórico para que os filhos do vento, os ciganos nômades, sejam também cidadãos brasileiros?

Liberdade

 
Liberdade, de Cecília Meireles, que era cigana...

"Liberdade, essa palavra
Que o sonho humano alimenta
Que não há ninguém que explique
E ninguém que não entenda"

 


 

"Para as pessoas de etnia cigana o trabalho é uma necessidade, não um objetivo. O trabalho deve proporcionar um tempo livre para tratar de assuntos sociais (encontros, visitas familiares, festas, visitas aos doentes), para desenvolver e manter relações sociais. Isto só pode ser feito se existir independência econômica, um dos elementos mais marcantes da identidade de ciganos e viajantes, e um fator para manter esta identidade. Não estar empregado torna possível não ficar envolvido num mundo estranho e inaceitável, torna possível evitar contato regular com este ambiente.... Por isso o que importa num emprego, é a maneira como pode ser exercido”.
Frans Moonen

Moralidade Cigana

 
O centro da moralidade cigana é a família, pequena ou grande, e para defendê-la criou-se todo um código interno que tutela os direitos do sangue, do matrimônio e da raça. Segundo esse código, é pecado para o cigano: 
  1. Não ajudar outro cigano;
  2. violar os direitos de outro cigano;
  3. faltar ao respeito pelos mais velhos;
  4. faltar à palavra dada entre ciganos;
  5. abandonar os filhos;
  6. a separação conjugal por traição;
  7. a maternidade antes do matrimônio;
  8. falta de pudor no vestir e nos modos de comportar;
  9. furtar em local sagrado;
  10. ofender a memória dos mortos.
Assede Paiva

 
Liberdade
Nós Ciganos só temos uma religião: a liberdade.
Em troca dela renunciamos à riqueza, ao poder, à ciência e à sua glória.
Vivemos cada dia como se fosse o último.
Quando se morre, se deixa tudo: um miserável carroção ou um grande império....

E nós cremos que naquele momento é muito melhor termos sido Ciganos do que reis.
Não pensamos na morte. Não a tememos, eis tudo.
O nosso segredo está em gozar a cada dia as pequenas coisas
que a vida nos oferece e que os outros homens não sabem apreciar:
uma manhã de sol, um banho na nascente,
o olhar de alguém que nos ama.
É difícil entender estas coisas, eu sei. Ciganos se nasce.
Gostamos de caminhar sob as estrelas.
Contam-se coisas estranhas sobre os Ciganos.
Dizem que leem o futuro nas estrelas
e que possuem o filtro do amor.
As pessoas não creem nas coisas que não sabem explicar.
Nós, ao contrário, não procuramos explicar as coisas nas quais cremos.
A nossa é uma vida simples, primitiva.
Basta-nos ter o céu por telhado,
um fogo para nos aquecer
e as nossas canções, quando estamos tristes.

Spatzo (Vittorio Mayer Pasquale)
Spatzo na língua dos Sintos Estrekárja significa "passarinho, pardal", um apelido que nos traz aquele senso de liberdade frequentemente relembrada por este poeta que, no decorrer da sua vida, conheceu momentos de intenso sofrimento. Através de suas poesias, diante das adversidades da sorte, Spatzo demonstra que soube conservar intacta aquela alma cigana, feita de coisas simples e imediatas

 
 
"Temos que ser iguais todas as vezes que as diferenças nos inferiorizam, e temos que ser  diferentes todas às vezes que as igualdades  nos descaracterizam”
(Boaventura Santos)

domingo, 3 de novembro de 2013

 
 
É preciso saber andar com os pés descalços.


 
 
Nós não queremos riquezas,
Queremos viver.
A chuva, o vento e as lágrimas
Eles são a alegria cigana.

Papusa, poeta Rrom