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sábado, 23 de novembro de 2013

 
Conheça o fascínio do povo cigano

"O meu povo não quer ir nem vir, o meu povo quer passar". Essa frase é de Cecília Meireles, e o povo de que ela fala é o povo cigano. Cercados por estigmas e perseguições, os ciganos seguem em suas passagens pelas terras do mundo há cerca de três mil anos. O povo teve origem na antiga Índia, e a palavra cigano vem de uma antiga língua morta e significa intocável,... ou aquele que faz bruxaria. Até hoje, o imaginário apresenta os ciganos com uma aura onde mistério, medo e fascinação se misturam. Mas atualmente, o povo cigano pede passagem para deixar os estereótipos para trás e serem simplesmente cidadãos brasileiros. Além de Cecília Meireles, a lista de personalidades de origem cigana no Brasil inclui até mesmo um ex-presidente, como detalha a cigana Yáskara Guelpa.

"O Brasil foi o único país do mundo que se saiba que teve um presidente cigano, que foi Juscelino Kubistchek, e mesmo assim não existem políticas anti ou pró-ciganas, e nem leis que tratem especificamente das minorias ciganas. Oficialmente os rom, sinti e kalon, que são os chamados ciganos, sequer são considerados minorias étnicas"

Yáscara Guelpa é jornalista e representante do povo cigano na Comissão de Povos Tradicionais, que foi criada pelo governo há dois anos. Ela conta que os ciganos saíram da Índia por razões ainda desconhecidas. Passaram pelo Oriente e entraram na Europa pela Turquia e Grécia. A partir do êxodo pelo Oriente, os ciganos passaram a se dedicar a atividades itinerantes, atuando então como ferreiros, domando e vendendo cavalos, fazendo comércio e apresentações como saltimbancos, e claro, oferecendo a arte da adivinhação. Os ciganos que foram para o leste europeu em países como a Romênia e a Rússia são os chamados ciganos rom e falam romanês. Os kalon são aqueles que se instalaram na península ibérica, Portugal e Espanha, e falam kalé. E os sinti, que falam sinto, foram para os demais países, como Itália, Escócia e Alemanha. Os três dialetos têm a mesma origem indiana, e o Brasil recebeu ciganos desses três grupos, sendo que existem diversos clãs dentro destes grupos. No Brasil, os primeiros ciganos a chegar vieram de Portugal, no ano de 1574, como explica Yáscara Guelpa.

"Eu costumo dizer que foi João Torres o primeiro cigano que chegou aqui porque nós temos documentação da chegada dele. Entre a chegada dele e a chegada do bisavô do Juscelino, que segundo consta foi o primeiro rom que pisou no Brasil temos aí duzentos e tantos anos. Para cá vieram ciganos da península ibérica, ciganos em sua maioria portugueses. Alguns vieram porque quiseram, outros vieram porque foram impedidos de continuar vivendo em Portugal".

Posteriormente, o Brasil recebeu ciganos de diversos países, sendo que nunca foi feito um mapeamento das comunidades ciganas no país. Yáskara Guelpa fala em 600 mil ciganos brasileiros, mas outras lideranças e o próprio governo mencionam que existem de 750 mil a um milhão de ciganos no Brasil. Desses, cerca de 100 mil são ciganos itinerantes que ainda viajam pelo país. A maior parte do povo cigano com residência fixa segue na invisibilidade, para se proteger do preconceito ou para manter suas tradições resguardadas dos gajés, os não ciganos. No Brasil, o reconhecimento deles como uma cultura a ser preservada é recente. Há dois anos, o governo assinou um decreto estabelecendo o dia 24 de maio como o Dia do Cigano. Nesta data, se celebra o dia de Santa Sara Kali, padroeira dos povos ciganos. Neste ano de 2008, o Ministério da Cultura criou um prêmio para valorizar a cultura cigana. Foram 20 iniciativas premiadas, que contemplaram iniciativas nas áreas de culinária, vestimenta, música e artes cênicas, joalheria, religiosidade e registros históricos e literários. O secretário de Diversidade e Identidade Cultural do Ministério da Cultura, Sérgio Mamberti, afirma que o valor dos ciganos ainda não foi reconhecido pela história brasileira, e destaca o papel que as caravanas tiveram na vida do Brasil colônia.

"Fizeram a vida cultural da colônia através das caravanas ciganas. Em cidades como Ouro Preto, por exemplo, tinha um espaço para a chegadas das caravanas, eu cheguei a ver recentemente. Ali os ciganos se reuniam e faziam os seus espetáculos. Eles faziam um pouco do que hoje faz a televisão, eles faziam circular as ideias e as expressões culturais".

O céu é o nosso teto, a terra é a nossa pátria e a liberdade é a nossa religião. Essa frase é dita pelos ciganos como uma definição de sua maneira de enxergar a vida. Porém, eles reconhecem a evolução dos tempos, e a despeito de considerarem a terra como pátria, querem ser reconhecidos como cidadãos brasileiros. A advogada Mirian Stanescon é conhecida por seu trabalho na valorização do povo cigano. Ela é autora de uma cartilha editada pelo governo para o esclarecimento das comunidades sobre seus direitos e destaca que o seu trabalho agora é por reconhecimento da cidadania.

"A ideia é que todo cigano pelo menos saiba o direito que ele tem como cidadão brasileiro. Na realidade, o cigano no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, ele se sente estrangeiro em sua própria terra. Se nós nascemos no solo brasileiro nós somos brasileiros, concorda? Os nossos antepassadas é que vieram, os meus avós vieram do Egito, outros vieram da Grécia, mas nós nascemos em solo brasileiro e brasileiros nós somos".

Mirian destaca que as prioridades para o povo cigano são muitas, já que nada foi feito até hoje para as comunidades. Além de ampliar o acesso aos serviços de educação e saúde para os ciganos mais humildes, ela defende que as barracas dos ciganos itinerantes tenham o status de residência. Isso impediria que a polícia invadisse os acampamentos de forma violenta e sem ordem judicial.

A imagem mais conhecida dos povos ciganos têm duas facetas. Eles são lembrados pelo lado do estereótipo mais folclórico, das mulheres sedutoras com vestidos coloridos lendo a sorte pelas linhas das mãos, da vida aventureira sem se prender a nada. Por outro lado, a literatura e o imaginário popular associam os ciganos com roubo, trapaças e rapto de crianças. Quem já não ouviu que cigana rouba criança na rua? Poucas pessoas sabem que a família é a instituição mais sagrada para o cigano, que segue adotando o respeito pelos mais velhos como ética inquestionável. Para Farde Stephanovichil, que preside a Associação de Preservação da Cultura Cigana de São Paulo, apenas a geração de conhecimento sobre a real vida cigana pode dissolver os mitos que se firmaram ao longo da história.

"É o trabalho da formiguinha, passo a passo. Se eu viabilizar um projeto que eu possa levar nas universidades e nos colégios para falar sobre a comunidade cigana e as pessoas começarem a ter ideia do que é ser cigano, cigano se nasce, não se cria, não se transforma. Então esse trabalho de geração de conhecimento indo às universidades, aos colégios, tendo talvez a possibilidade de ter uma cadeira de ciganologia, isso faria diferença, óbvio que a longo prazo".

E passo a passo, o povo cigano pede passagem, mas agora exige respeito às suas tradições sem abrir mão dos direitos como cidadãos brasileiros.

 
Genocídio dos Roma no Holocausto (Holocausto cigano)
GENOCÍDIO DOS ROMA NO HOLOCAUSTO
por Ian Hancock

Os Roma, muito comumente, mas de forma equivocada, chamados de ciganos, foram a outra única população, ao lado dos judeus, que foram atingidos pelo extermínio racial na Solução Final. Chegaram à Europa por volta do ano 1300, vindos da Índia, região a qual eles haviam deixado cerca de três séculos... antes como uma população militar de origem mestiça, não-ariana, reunidos para lutar contra os invasores muçulmanos. Sua entrada na Europa, via Império Bizantino, foi também resultado direto da expansão islâmica.

Como um povo asiático não-cristão, não-branco, e sem possuir nenhum território na Europa, os Roma eram forasteiros em todos os países. A cultura Romani também forçava - como ainda faz - que houvesse uma distância social entre os Roma e os gadjé (não-Roma), e assim sua segregação era reforçada.

O povo Romani na Alemanha chamava-se a si mesmo de Sinti, enquanto zigeuner é o equivalente alemão de "cigano". Quando os nazistas chegaram ao poder em 1933, as leis alemãs contra eles já estavam em vigor há centenas de anos. A perseguição do povo Romani começou quase tão cedo quando o primeiro Roma chegou pela primeira vez em terras de língua alemã, pois como estrangeiros, estavam quebrando muitas das leis Hanseáticas que tornava crime punível por lei alguém não ter um domicílio fixo ou emprego, e não ser cadastrado como contribuinte de impostos. Eles também foram acusados de serem espiões para os muçulmanos, a quem poucos alemães conheciam, mas de quem haviam ouvido muitas histórias assustadoras. A tez escura e o comportamento não-cristão e a aparência dos Roma simplesmente se adicionavam ao preconceito que se tornou crescente. Em 1721 o Imperador Carlos VI ordenou o extermínio de todos os Roma em qualquer lugar, não era ilegal matar um Rom, e houve algumas vezes "caçadas de ciganos", nas quais os Roma foram perseguidos e mortos como animais selvagens. Florestas foram incendiadas para expulsar qualquer Roma que poderia ter se escondido lá.

Pelo século 19, estudiosos na Alemanha e no resto da Europa estavam escrevendo sobre os Roma e os judeus como sendo seres inferiores e "o excremento da humanidade". Isto se cristalizou especificamente em atitudes racistas nos escritos de Knox, Tetzner, Gobineau e outros. Pelos anos de 1880, o chanceler von Bismarck reforçou algumas das leis discriminatórias, afirmando que os Roma fossem tratados "com especial severidade" se detidos. Por volta de 1890, uma conferência sobre "a escória cigana" foi realizada na Suábia, na qual os militares adquiriram o poder de manter os Roma em circulação. Na obra publicada em 1899 de Houston Chamberlaine, "Os Fundamentos do Século 19", ele defencia a construção de uma "recém formada ... e ... especialmente destacada raça ariana". Isto usado para justificar a promoção de idéias sobre a superioridade racial alemã e para qualquer ação opressora tomadas contra membros de populações "inferiores". Naquele mesmo ano, a "Agência de Informação Cigana" foi criado em Munique sob a direção de Alfred Dillmann, que começou a catalogação de informações sobre todos os Roma em todas as terras alemãs. Os resultados disto foram publicados em 1905 no Zigeuner-Buch de Dillmann, que lançou as bases para o que viria a acontecer com os Roma no Holocausto, 35 anos depois.

O Zigeuner-Buch, com cerca de 350 páginas, era composto de três partes: primeiro, uma introdução afirmando que os Roma eram uma "praga" e uma "ameaça" a qual a população alemã tinha que se defender contra o uso de "castigos cruéis", e que advertia sobre os perigos da mistura de genes Romani e alemães. A segunda parte foi um registro dos Roma conhecidos, dando detalhes genealógicos e registos criminais caso houvesse. E a terceira parte era uma coleção de fotografias dessas mesmas pessoas. A "Mistura de raças" de Dillmann, mais tarde, tornou-se uma parte central das Leis de Nuremberg na Alemanha nazista.

Em 1920, Karl Binding e Alfred Hoche publicaram seu livro "A erradicação das vidas dos indignos da vida", usando uma frase primeiramente cunhada por Richard Liebich com específica referência aos Roma quase 60 anos antes. Entre os grupos que eles consideravam "indignos de viver" estavam os "doentes mentais sem cura", e foi este grupo que eles consideravam que pertenciam os ciganos. A perceptível "criminalidade" Romani era vista como uma doença genética hereditária, embora não fosse levado em conta os séculos de exclusão dos ciganos da sociedade alemã, que fizeram do roubo de subsistência uma necessidade para sobrevivência. Uma lei incorporando a mesma frase foi posta em prática apenas quatro meses depois de Hitler se tornar chanceler do Terceiro Reich.

Durante a década de 1920, a opressão legal aos Roma na Alemanha intensificou-se consideravelmente, apesar dos estatutos de igualdade da República de Weimar. Em 1920 eles foram proibidos de entrar em parques e banheiros públicos; em 1925 uma conferência sobre "A Questão Cigana" foi realizado, e resultou em leis que pediam que os desempregados Roma fossem enviados para campos de trabalho "por razões de segurança pública", e que todos os Roma fossem registrados na polícia. Depois de 1927, todos os ciganos, mesmo as crianças, tinha que carregar cartões de identificação, tendo impressões digitais e fotografias. Em 1929, um Escritório Central de Luta Contra a ciganos na Alemanha foi criado em Munique, e em 1933, apenas dez dias antes dos nazistas chegarem ao poder, funcionários do governo em Burgenland pediram a retirada de todos os direitos civis do povo Romani.

Em setembro de 1935, os Roma tornaram-se sujeitos às restrições da Lei de Nuremberg para a Proteção do Sangue Alemão e Honra, que proibia o casamento entre alemães e "não-arianos", especificamente judeus, ciganos e pessoas de ascendência africana(negras). Em 1937, a Lei de Cidadania Nacional relegava os Roma e judeus à condição de cidadãos de segunda classe, privando-os de seus direitos civis. Também em 1937, Heinrich Himmler emitiu um decreto intitulado "A luta contra a praga cigana", que reiterava que os ciganos de sangue misturado eram os mais propensos a se envolver em atividades criminosas, e que solicitava que todas as informações sobre os Roma fossem enviadas, dos departamentos da polícia regional, para o Escritório Central Reich.

Entre 12 de junho e 18 de junho de 1938, a semana de "limpeza" dos ciganos ocorreu em toda a Alemanha que, como Kristallnacht (Noite dos Cristais) para o povo judeu no mesmo ano, marcou o começo do fim. Também em 1938, a primeira referência à "Solução Final da Questão Cigana" apareceu, em um documento assinado por Himmler em 08 de dezembro daquele ano.

Em janeiro de 1940, a primeira ação do genocídio em massa do Holocausto ocorreu quando 250 crianças ciganas foram assassinadas em Buchenwald, onde foram usadas como cobaias para testar a eficácia dos cristais de Zyklon-B, usado mais tarde nas câmaras de gás. Em junho de 1940, Hitler ordenou a liquidação de "todos os judeus, ciganos e comunistas funcionários políticos em toda a União Soviética."

Em julho, 31 de 1941, Heydrich, arquiteto-chefe dos detalhes da Solução Final, emitiu sua ordem para o Einsatzkommandos, para "matar todos os judeus, ciganos e doentes mentais." Poucos dias depois, Himmler emitiu seus critérios de avaliação biológica e racial, que determinavam que histórico familiar dos Roma deveriam ser investigados por três gerações. Em 16 de dezembro desse mesmo ano, Himmler emitiu uma ordem para que todos os Roma restantes Roma na Europa fossem deportados para Auschwitz-Birkenau para o extermínio. Em 24 de dezembro, Lohse deu a ordem adicional para que "aos ciganos deva ser dado o mesmo tratamento dos judeus". Em uma reunião do partido em 14 de setembro de 1942, o ministro da Justiça Otto Thierack anunciou que "judeus e ciganos devem ser incondicionalmente exterminados." Em 01 de agosto de 1944, quatro mil ciganos foram gaseados e cremados em uma única ação em Auschwitz-Birkenau, o que é lembrado como Zigeunernacht.

Determinar a percentagem ou número de Roma que morreram no Holocausto (chamado de Porajmos, "paw-RYE-mos" em Romani, uma palavra que significa "Devorando a") não é fácil. Grande parte da documentação nazi ainda precisa ser analisada, e muitos assassinatos não foram registrados, uma vez que ocorreram nos campos e florestas onde os Roma foram apreendidos. Não há estimativa precisa nem para a população Romani pré-guerra na Europa, embora o censo oficial do Partido Nazista de 1939 estimava em cerca de dois milhões, que é sem dúvida, uma sub-representação. A estimativa mais recente (1997) a partir do Instituto de Pesquisa do Museu Memorial do Holocausto dos EUA, em Washington, coloca o número de vidas perdidas pelos Romanis em 1945, "entre meio milhão e um milhão e meio." Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o registro da Alemanha em relação ao povo Romani foi menos que exemplar. Ninguém foi chamado para testemunhar em favor das vítimas Romani nos Julgamentos de Nuremberg, e nenhuma reparação dos crimes de guerra foi pagas aos ciganos como um povo. Hoje, a atividade neonazista na Alemanha faz dos Roma o seu principal alvo de violência racial.

Os Estados Unidos também não fez nada para ajudar os Roma durante ou após o Holocausto. Apenas dez por cento das centenas de milhões de dólares disponibilizados pela Organização das Nações Unidas(ONU) para os sobreviventes, os quais foram dadas a responsabilidade ao governo dos EUA de desembolso, foi reservada para não-judeus, e nada disto foi direcionado aos sobreviventes Romanis, cujo número hoje é de cerca de 5.000. Roma que não foram mencionados em qualquer documentação do Conselho de Refugiados de Guerra dos EUA, o qual foi capaz de salvar a vida de mais de 200.000 judeus. Quando o Conselho do Museu Memorial do Holocausto dos EUA(USHMM) foi criado em 1980, nenhum Roma foi convidado a participar, e ele tem hoje apenas um membro hoje Romani. Os Roma são apenas uma parte deste Museu até o momento, estando localizados em um canto no terceiro andar reservado para as "outras vítimas".

 
De Cecília Meireles, cigana poeta
Epigrama 7
A tua raça de aventura
Quis ter a terra, o céu, o mar......

Na minha, há uma delícia obscura
em não querer, em não ganhar...

A tua raça quer partir, guerrear,
sofrer, vencer, voltar.
A minha, não quer ir nem vir.
A minha raça quer passar.