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sábado, 23 de novembro de 2013

 
Conheça o fascínio do povo cigano

"O meu povo não quer ir nem vir, o meu povo quer passar". Essa frase é de Cecília Meireles, e o povo de que ela fala é o povo cigano. Cercados por estigmas e perseguições, os ciganos seguem em suas passagens pelas terras do mundo há cerca de três mil anos. O povo teve origem na antiga Índia, e a palavra cigano vem de uma antiga língua morta e significa intocável,... ou aquele que faz bruxaria. Até hoje, o imaginário apresenta os ciganos com uma aura onde mistério, medo e fascinação se misturam. Mas atualmente, o povo cigano pede passagem para deixar os estereótipos para trás e serem simplesmente cidadãos brasileiros. Além de Cecília Meireles, a lista de personalidades de origem cigana no Brasil inclui até mesmo um ex-presidente, como detalha a cigana Yáskara Guelpa.

"O Brasil foi o único país do mundo que se saiba que teve um presidente cigano, que foi Juscelino Kubistchek, e mesmo assim não existem políticas anti ou pró-ciganas, e nem leis que tratem especificamente das minorias ciganas. Oficialmente os rom, sinti e kalon, que são os chamados ciganos, sequer são considerados minorias étnicas"

Yáscara Guelpa é jornalista e representante do povo cigano na Comissão de Povos Tradicionais, que foi criada pelo governo há dois anos. Ela conta que os ciganos saíram da Índia por razões ainda desconhecidas. Passaram pelo Oriente e entraram na Europa pela Turquia e Grécia. A partir do êxodo pelo Oriente, os ciganos passaram a se dedicar a atividades itinerantes, atuando então como ferreiros, domando e vendendo cavalos, fazendo comércio e apresentações como saltimbancos, e claro, oferecendo a arte da adivinhação. Os ciganos que foram para o leste europeu em países como a Romênia e a Rússia são os chamados ciganos rom e falam romanês. Os kalon são aqueles que se instalaram na península ibérica, Portugal e Espanha, e falam kalé. E os sinti, que falam sinto, foram para os demais países, como Itália, Escócia e Alemanha. Os três dialetos têm a mesma origem indiana, e o Brasil recebeu ciganos desses três grupos, sendo que existem diversos clãs dentro destes grupos. No Brasil, os primeiros ciganos a chegar vieram de Portugal, no ano de 1574, como explica Yáscara Guelpa.

"Eu costumo dizer que foi João Torres o primeiro cigano que chegou aqui porque nós temos documentação da chegada dele. Entre a chegada dele e a chegada do bisavô do Juscelino, que segundo consta foi o primeiro rom que pisou no Brasil temos aí duzentos e tantos anos. Para cá vieram ciganos da península ibérica, ciganos em sua maioria portugueses. Alguns vieram porque quiseram, outros vieram porque foram impedidos de continuar vivendo em Portugal".

Posteriormente, o Brasil recebeu ciganos de diversos países, sendo que nunca foi feito um mapeamento das comunidades ciganas no país. Yáskara Guelpa fala em 600 mil ciganos brasileiros, mas outras lideranças e o próprio governo mencionam que existem de 750 mil a um milhão de ciganos no Brasil. Desses, cerca de 100 mil são ciganos itinerantes que ainda viajam pelo país. A maior parte do povo cigano com residência fixa segue na invisibilidade, para se proteger do preconceito ou para manter suas tradições resguardadas dos gajés, os não ciganos. No Brasil, o reconhecimento deles como uma cultura a ser preservada é recente. Há dois anos, o governo assinou um decreto estabelecendo o dia 24 de maio como o Dia do Cigano. Nesta data, se celebra o dia de Santa Sara Kali, padroeira dos povos ciganos. Neste ano de 2008, o Ministério da Cultura criou um prêmio para valorizar a cultura cigana. Foram 20 iniciativas premiadas, que contemplaram iniciativas nas áreas de culinária, vestimenta, música e artes cênicas, joalheria, religiosidade e registros históricos e literários. O secretário de Diversidade e Identidade Cultural do Ministério da Cultura, Sérgio Mamberti, afirma que o valor dos ciganos ainda não foi reconhecido pela história brasileira, e destaca o papel que as caravanas tiveram na vida do Brasil colônia.

"Fizeram a vida cultural da colônia através das caravanas ciganas. Em cidades como Ouro Preto, por exemplo, tinha um espaço para a chegadas das caravanas, eu cheguei a ver recentemente. Ali os ciganos se reuniam e faziam os seus espetáculos. Eles faziam um pouco do que hoje faz a televisão, eles faziam circular as ideias e as expressões culturais".

O céu é o nosso teto, a terra é a nossa pátria e a liberdade é a nossa religião. Essa frase é dita pelos ciganos como uma definição de sua maneira de enxergar a vida. Porém, eles reconhecem a evolução dos tempos, e a despeito de considerarem a terra como pátria, querem ser reconhecidos como cidadãos brasileiros. A advogada Mirian Stanescon é conhecida por seu trabalho na valorização do povo cigano. Ela é autora de uma cartilha editada pelo governo para o esclarecimento das comunidades sobre seus direitos e destaca que o seu trabalho agora é por reconhecimento da cidadania.

"A ideia é que todo cigano pelo menos saiba o direito que ele tem como cidadão brasileiro. Na realidade, o cigano no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, ele se sente estrangeiro em sua própria terra. Se nós nascemos no solo brasileiro nós somos brasileiros, concorda? Os nossos antepassadas é que vieram, os meus avós vieram do Egito, outros vieram da Grécia, mas nós nascemos em solo brasileiro e brasileiros nós somos".

Mirian destaca que as prioridades para o povo cigano são muitas, já que nada foi feito até hoje para as comunidades. Além de ampliar o acesso aos serviços de educação e saúde para os ciganos mais humildes, ela defende que as barracas dos ciganos itinerantes tenham o status de residência. Isso impediria que a polícia invadisse os acampamentos de forma violenta e sem ordem judicial.

A imagem mais conhecida dos povos ciganos têm duas facetas. Eles são lembrados pelo lado do estereótipo mais folclórico, das mulheres sedutoras com vestidos coloridos lendo a sorte pelas linhas das mãos, da vida aventureira sem se prender a nada. Por outro lado, a literatura e o imaginário popular associam os ciganos com roubo, trapaças e rapto de crianças. Quem já não ouviu que cigana rouba criança na rua? Poucas pessoas sabem que a família é a instituição mais sagrada para o cigano, que segue adotando o respeito pelos mais velhos como ética inquestionável. Para Farde Stephanovichil, que preside a Associação de Preservação da Cultura Cigana de São Paulo, apenas a geração de conhecimento sobre a real vida cigana pode dissolver os mitos que se firmaram ao longo da história.

"É o trabalho da formiguinha, passo a passo. Se eu viabilizar um projeto que eu possa levar nas universidades e nos colégios para falar sobre a comunidade cigana e as pessoas começarem a ter ideia do que é ser cigano, cigano se nasce, não se cria, não se transforma. Então esse trabalho de geração de conhecimento indo às universidades, aos colégios, tendo talvez a possibilidade de ter uma cadeira de ciganologia, isso faria diferença, óbvio que a longo prazo".

E passo a passo, o povo cigano pede passagem, mas agora exige respeito às suas tradições sem abrir mão dos direitos como cidadãos brasileiros.

 
Genocídio dos Roma no Holocausto (Holocausto cigano)
GENOCÍDIO DOS ROMA NO HOLOCAUSTO
por Ian Hancock

Os Roma, muito comumente, mas de forma equivocada, chamados de ciganos, foram a outra única população, ao lado dos judeus, que foram atingidos pelo extermínio racial na Solução Final. Chegaram à Europa por volta do ano 1300, vindos da Índia, região a qual eles haviam deixado cerca de três séculos... antes como uma população militar de origem mestiça, não-ariana, reunidos para lutar contra os invasores muçulmanos. Sua entrada na Europa, via Império Bizantino, foi também resultado direto da expansão islâmica.

Como um povo asiático não-cristão, não-branco, e sem possuir nenhum território na Europa, os Roma eram forasteiros em todos os países. A cultura Romani também forçava - como ainda faz - que houvesse uma distância social entre os Roma e os gadjé (não-Roma), e assim sua segregação era reforçada.

O povo Romani na Alemanha chamava-se a si mesmo de Sinti, enquanto zigeuner é o equivalente alemão de "cigano". Quando os nazistas chegaram ao poder em 1933, as leis alemãs contra eles já estavam em vigor há centenas de anos. A perseguição do povo Romani começou quase tão cedo quando o primeiro Roma chegou pela primeira vez em terras de língua alemã, pois como estrangeiros, estavam quebrando muitas das leis Hanseáticas que tornava crime punível por lei alguém não ter um domicílio fixo ou emprego, e não ser cadastrado como contribuinte de impostos. Eles também foram acusados de serem espiões para os muçulmanos, a quem poucos alemães conheciam, mas de quem haviam ouvido muitas histórias assustadoras. A tez escura e o comportamento não-cristão e a aparência dos Roma simplesmente se adicionavam ao preconceito que se tornou crescente. Em 1721 o Imperador Carlos VI ordenou o extermínio de todos os Roma em qualquer lugar, não era ilegal matar um Rom, e houve algumas vezes "caçadas de ciganos", nas quais os Roma foram perseguidos e mortos como animais selvagens. Florestas foram incendiadas para expulsar qualquer Roma que poderia ter se escondido lá.

Pelo século 19, estudiosos na Alemanha e no resto da Europa estavam escrevendo sobre os Roma e os judeus como sendo seres inferiores e "o excremento da humanidade". Isto se cristalizou especificamente em atitudes racistas nos escritos de Knox, Tetzner, Gobineau e outros. Pelos anos de 1880, o chanceler von Bismarck reforçou algumas das leis discriminatórias, afirmando que os Roma fossem tratados "com especial severidade" se detidos. Por volta de 1890, uma conferência sobre "a escória cigana" foi realizada na Suábia, na qual os militares adquiriram o poder de manter os Roma em circulação. Na obra publicada em 1899 de Houston Chamberlaine, "Os Fundamentos do Século 19", ele defencia a construção de uma "recém formada ... e ... especialmente destacada raça ariana". Isto usado para justificar a promoção de idéias sobre a superioridade racial alemã e para qualquer ação opressora tomadas contra membros de populações "inferiores". Naquele mesmo ano, a "Agência de Informação Cigana" foi criado em Munique sob a direção de Alfred Dillmann, que começou a catalogação de informações sobre todos os Roma em todas as terras alemãs. Os resultados disto foram publicados em 1905 no Zigeuner-Buch de Dillmann, que lançou as bases para o que viria a acontecer com os Roma no Holocausto, 35 anos depois.

O Zigeuner-Buch, com cerca de 350 páginas, era composto de três partes: primeiro, uma introdução afirmando que os Roma eram uma "praga" e uma "ameaça" a qual a população alemã tinha que se defender contra o uso de "castigos cruéis", e que advertia sobre os perigos da mistura de genes Romani e alemães. A segunda parte foi um registro dos Roma conhecidos, dando detalhes genealógicos e registos criminais caso houvesse. E a terceira parte era uma coleção de fotografias dessas mesmas pessoas. A "Mistura de raças" de Dillmann, mais tarde, tornou-se uma parte central das Leis de Nuremberg na Alemanha nazista.

Em 1920, Karl Binding e Alfred Hoche publicaram seu livro "A erradicação das vidas dos indignos da vida", usando uma frase primeiramente cunhada por Richard Liebich com específica referência aos Roma quase 60 anos antes. Entre os grupos que eles consideravam "indignos de viver" estavam os "doentes mentais sem cura", e foi este grupo que eles consideravam que pertenciam os ciganos. A perceptível "criminalidade" Romani era vista como uma doença genética hereditária, embora não fosse levado em conta os séculos de exclusão dos ciganos da sociedade alemã, que fizeram do roubo de subsistência uma necessidade para sobrevivência. Uma lei incorporando a mesma frase foi posta em prática apenas quatro meses depois de Hitler se tornar chanceler do Terceiro Reich.

Durante a década de 1920, a opressão legal aos Roma na Alemanha intensificou-se consideravelmente, apesar dos estatutos de igualdade da República de Weimar. Em 1920 eles foram proibidos de entrar em parques e banheiros públicos; em 1925 uma conferência sobre "A Questão Cigana" foi realizado, e resultou em leis que pediam que os desempregados Roma fossem enviados para campos de trabalho "por razões de segurança pública", e que todos os Roma fossem registrados na polícia. Depois de 1927, todos os ciganos, mesmo as crianças, tinha que carregar cartões de identificação, tendo impressões digitais e fotografias. Em 1929, um Escritório Central de Luta Contra a ciganos na Alemanha foi criado em Munique, e em 1933, apenas dez dias antes dos nazistas chegarem ao poder, funcionários do governo em Burgenland pediram a retirada de todos os direitos civis do povo Romani.

Em setembro de 1935, os Roma tornaram-se sujeitos às restrições da Lei de Nuremberg para a Proteção do Sangue Alemão e Honra, que proibia o casamento entre alemães e "não-arianos", especificamente judeus, ciganos e pessoas de ascendência africana(negras). Em 1937, a Lei de Cidadania Nacional relegava os Roma e judeus à condição de cidadãos de segunda classe, privando-os de seus direitos civis. Também em 1937, Heinrich Himmler emitiu um decreto intitulado "A luta contra a praga cigana", que reiterava que os ciganos de sangue misturado eram os mais propensos a se envolver em atividades criminosas, e que solicitava que todas as informações sobre os Roma fossem enviadas, dos departamentos da polícia regional, para o Escritório Central Reich.

Entre 12 de junho e 18 de junho de 1938, a semana de "limpeza" dos ciganos ocorreu em toda a Alemanha que, como Kristallnacht (Noite dos Cristais) para o povo judeu no mesmo ano, marcou o começo do fim. Também em 1938, a primeira referência à "Solução Final da Questão Cigana" apareceu, em um documento assinado por Himmler em 08 de dezembro daquele ano.

Em janeiro de 1940, a primeira ação do genocídio em massa do Holocausto ocorreu quando 250 crianças ciganas foram assassinadas em Buchenwald, onde foram usadas como cobaias para testar a eficácia dos cristais de Zyklon-B, usado mais tarde nas câmaras de gás. Em junho de 1940, Hitler ordenou a liquidação de "todos os judeus, ciganos e comunistas funcionários políticos em toda a União Soviética."

Em julho, 31 de 1941, Heydrich, arquiteto-chefe dos detalhes da Solução Final, emitiu sua ordem para o Einsatzkommandos, para "matar todos os judeus, ciganos e doentes mentais." Poucos dias depois, Himmler emitiu seus critérios de avaliação biológica e racial, que determinavam que histórico familiar dos Roma deveriam ser investigados por três gerações. Em 16 de dezembro desse mesmo ano, Himmler emitiu uma ordem para que todos os Roma restantes Roma na Europa fossem deportados para Auschwitz-Birkenau para o extermínio. Em 24 de dezembro, Lohse deu a ordem adicional para que "aos ciganos deva ser dado o mesmo tratamento dos judeus". Em uma reunião do partido em 14 de setembro de 1942, o ministro da Justiça Otto Thierack anunciou que "judeus e ciganos devem ser incondicionalmente exterminados." Em 01 de agosto de 1944, quatro mil ciganos foram gaseados e cremados em uma única ação em Auschwitz-Birkenau, o que é lembrado como Zigeunernacht.

Determinar a percentagem ou número de Roma que morreram no Holocausto (chamado de Porajmos, "paw-RYE-mos" em Romani, uma palavra que significa "Devorando a") não é fácil. Grande parte da documentação nazi ainda precisa ser analisada, e muitos assassinatos não foram registrados, uma vez que ocorreram nos campos e florestas onde os Roma foram apreendidos. Não há estimativa precisa nem para a população Romani pré-guerra na Europa, embora o censo oficial do Partido Nazista de 1939 estimava em cerca de dois milhões, que é sem dúvida, uma sub-representação. A estimativa mais recente (1997) a partir do Instituto de Pesquisa do Museu Memorial do Holocausto dos EUA, em Washington, coloca o número de vidas perdidas pelos Romanis em 1945, "entre meio milhão e um milhão e meio." Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o registro da Alemanha em relação ao povo Romani foi menos que exemplar. Ninguém foi chamado para testemunhar em favor das vítimas Romani nos Julgamentos de Nuremberg, e nenhuma reparação dos crimes de guerra foi pagas aos ciganos como um povo. Hoje, a atividade neonazista na Alemanha faz dos Roma o seu principal alvo de violência racial.

Os Estados Unidos também não fez nada para ajudar os Roma durante ou após o Holocausto. Apenas dez por cento das centenas de milhões de dólares disponibilizados pela Organização das Nações Unidas(ONU) para os sobreviventes, os quais foram dadas a responsabilidade ao governo dos EUA de desembolso, foi reservada para não-judeus, e nada disto foi direcionado aos sobreviventes Romanis, cujo número hoje é de cerca de 5.000. Roma que não foram mencionados em qualquer documentação do Conselho de Refugiados de Guerra dos EUA, o qual foi capaz de salvar a vida de mais de 200.000 judeus. Quando o Conselho do Museu Memorial do Holocausto dos EUA(USHMM) foi criado em 1980, nenhum Roma foi convidado a participar, e ele tem hoje apenas um membro hoje Romani. Os Roma são apenas uma parte deste Museu até o momento, estando localizados em um canto no terceiro andar reservado para as "outras vítimas".

 
De Cecília Meireles, cigana poeta
Epigrama 7
A tua raça de aventura
Quis ter a terra, o céu, o mar......

Na minha, há uma delícia obscura
em não querer, em não ganhar...

A tua raça quer partir, guerrear,
sofrer, vencer, voltar.
A minha, não quer ir nem vir.
A minha raça quer passar. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

 
Sabemos que é chocante...
Mas é preciso mostrar, falar, e...
Sem melindres a verdade visível para os olhos de ver...

 
A maioria dos ciganos, até poucas décadas atrás, ainda formava caravanas puxadas por cavalos; abrigavam-se em tendas, pedreiras e minas. Em fogueiras ao ar livre, cozinhavam seus frangos, ovos e vegetais. Viviam principalmente da criação e comércio de cavalos, do artesanato em metal, vime e madeira, e das artes divinatórias, como cartomancia e quiromancia.
Embora não tantos, ainda existem ciganos nômades. Por quê?
Por quais motivos ciganos sentem-se felizes praticando o nomadismo? Mas...será que se sentem felizes mesmo, ou precisam mudar-se constantemente para serem felizes?
Está aberto o debate....

 

“O governo brasileiro está inadimplente com a nação cigana. Aquele ciganinho debaixo da tenda, por mais paupérrimo que seja, gera impostos sobre tudo o que consome, mas por enquanto não existe ainda nenhuma política pública em prol desse segmento”.
Cláudio Iovanovitchi

 
Anatomia de um Povo Desprezado
Por Helion Póvoa Neto, Professor da UFRJ e Coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios (NIEM)
nov. 2010
...

Os ciganos por vezes aparecem como povo “à parte”, não pertencente a nações territoriais, com vida nômade ou seminômade, provocando estranheza numa sociedade com valores associados à sedentarização, como a Europa.

Junto disso, é bom lembrar que, na sociedade moderna, pessoas partem em busca de novos lugares para viver e se estabilizar, por causas econômicas, políticas e religiosas. São as migrações.
Ao mesmo tempo, há movimentos associados à “errância”, ao nomadismo ou à incapacidade de estabelecer relações duradouras com os lugares e as formas de trabalho mais tradicionais, que são fortemente estigmatizados, levando a iniciativas de assimilação ou sedentarização forçada. Os povos ciganos já foram alvo de tais processos, embora muitos mantenham seu estilo de vida característico. Costumam atuar em ofícios ligados à arte e às atividades mágicas, com uma existência tida como “aventureira”, suscitando atitudes ambíguas da parte dos que vivem em sociedades não nômades.

Tem sido este o tom do relacionamento das sociedades ocidentais com os ciganos ao longo da história, desde que apareceram no continente europeu, causando, ao mesmo tempo, curiosidade e medo. Não havia registros escritos sobre sua origem e história. Paralelamente, praticavam uma cultura de transmissão oral, em uma língua incompreensível e cheia de segredos para os ocidentais.

O nome com que passaram a ser conhecidos já revela esse aspecto. Identificando-se como refugiados do Egito muçulmano, favoreciam a associação entre “egípcios” (égiptiens, egyptians, egitanos) e os nomes gitans, tsiganes em francês, gypsies em inglês, gitanos em espanhol, ou ciganos em português. Muitos ciganos consideram tais nomes pejorativos e, mesmo sem consenso, preferem a designação de povos romani, rom ou roma.


A chegada à Europa
Sendo o continente europeu fundamentalmente cristão, especulações sobre a origem dos ciganos apoiaram-se em escritos bíblicos. Já foram qualificados como amaldiçoados, condenados a vagar pelo mundo por descenderem de Caim, por terem negado abrigo a José e Maria na volta do Egito ou por haverem forjado os pregos usados para a crucificação de Jesus Cristo.
Vale notar a semelhança com lendas referentes a outro grupo, os judeus, também associados à errância, a uma “culpa original” e ao exercício de ofícios diferentes daqueles dos cristãos. Séculos mais tarde, tidos como “sem pátria”, os dois grupos seriam vítimas do Holocausto na Alemanha nazista.
As conclusões já aceitas sobre os ciganos baseiam-se em registros escritos e nas línguas e dialetos romani, que foram assimilando características das regiões pelas quais passavam.

A explicação mais aceita aponta para a península indiana como área de origem, com a saída ocorrendo na Antiguidade. Textos e imagens de época registram a chegada e passagem de músicos e outros trabalhadores indianos à Pérsia (atual Irã) entre os séculos III e V de nossa era. Outros registros históricos documentam um movimento progressivo, rumo ao Ocidente, de grupos nômades com origem indiana.

No século XIV, a presença dos ciganos começou a se fazer notar na maior parte da Península Balcânica, onde hoje estão Croácia, Sérvia, Bulgária e Romênia. Nessas regiões registram-se também os primeiros sinais de escravização de ciganos, um fenômeno que ocorreria até o século XIX em boa parte do Leste Europeu.

Estigma e Violência

As guerras e as crises agrárias na Europa, entre o fim da Idade Média, haviam deixado senhores de terras sem trabalhadores, o que acarretou uma legislação contra a vagabundagem e a errância, visando compelir as pessoas ao trabalho. Os ciganos, com pele mais escura, sem vínculos a nenhuma nação reconhecida e parecendo “naturalmente” nômades, foram as maiores vítimas. Eram alvos também para a Igreja Católica, preocupada com formas de magia (a leitura de mãos e a previsão do futuro).

Assim, ao mesmo tempo que os ciganos chegavam à Europa Ocidental, por volta do século XV, as atitudes discriminatórias se acentuavam. Mesmo onde não havia escravidão, ser reconhecido como cigano ou judeu equivalia a ser criminoso e ao trabalho nas galés (prisões). Nobres, reis e papas buscavam submeter os nômades vistos como irredutíveis ou indesejáveis. O papa Pio V incitou os governos de Portugal, Espanha e França a expulsar ciganos das áreas católicas para África e América. Em alguns casos, os próprios ciganos tomaram a iniciativa de emigrar para o Novo Mundo, seguindo os judeus que se cristianizavam e fugiam das perseguições na Europa.

No século XVIII, permaneceram tentativas de sedentarização forçada e erradicação das línguas romani. Muitos, porém, permaneceram nômades: viviam de transporte e a venda de animais, comércio em mercados temporários, trabalho como músicos e artistas de circo, leitura de mãos e adivinhação da sorte nas cidades.

Em alguns países, tiveram uma relativa estabilidade e integração às sociedades locais, como na Espanha, onde a cultura flamenca é praticada por ciganos e reconhecida como um símbolo de identidade nacional.
No Leste Europeu, onde ciganos representam porcentagem significativa da população em países como a Romênia e a Bulgária, permanece predominantemente o grupo rom, ou roma, que pratica a língua romani e apresenta diversos subgrupos.

A partir do século XIX, as atitudes quanto aos ciganos estabilizaram-se, na Europa, persistindo a discriminação, mas com um crescente interesse em sua linguagem, música e cultura. As leis anticiganos tendiam a ser abolidas, juntamente com a servidão e a escravidão no Leste. O espírito romântico nas artes voltou-se muitas vezes para os ciganos.

Da sedentarização ao extermínio
A relação entre ciganos e povos europeus voltou a ser violenta com o governo nazista da Alemanha. Manifestações de intolerância surgiram na década de 1920, quando leis pronunciavam ciganos e judeus como “raças estrangeiras” de sangue “impuro” e ameaçadoras ao projeto de pureza racial alemã.

Classificados como criminosos, alheios à “sociedade normal”, foram deportados à Polônia, aprisionados em campos de concentração e submetidos, de 1943 a 1945, à chamada “solução final”, com o extermínio de 200 mil a 800 mil ciganos.

No pós-Segunda Guerra Mundial, os ciganos do Leste Europeu, habitantes dos países do bloco socialista, estiveram sujeitos a projetos de assimilação e sedentarização- forçada. O nomadismo sofreu interdições, e a escolarização tornou-se obrigatória, com negação do estatuto de minoria étnica e linguística. A sedentarização foi atingida, mas em geral a assimilação fracassou: ressentimentos e preconceitos entre ciganos e não ciganos existem até hoje.

A abertura da União Europeia
Durante a Guerra Fria, ciganos do Leste Europeu eram proibidos de viajar. Porém, na década de 1960, ocorreu uma vinda de ciganos, principalmente da antiga Iugoslávia, para países ocidentais.

A grande mudança nos fluxos aconteceu a partir de 1989, com a queda dos regimes socialistas e a migração, em massa, de grupos acalentados pelo sonho do “Ocidente próspero” e receptivo à imigração. Juntando-se a outros não ciganos do Leste, milhares de roma deslocaram-se legal ou ilegalmente.
A partir de 2004, ingressaram na União Europeia países com considerável população cigana, como Hungria, Eslováquia, República Tcheca. Em 2007, aderiram também Bulgária e Romênia.

O problema dos ciganos confunde-se com a rejeição aos imigrantes em geral, e também com o tema político, extremamente sensível, o da expansão da UE rumo ao Leste. Outros países com consideráveis contingentes de ciganos são também candidatos ao ingresso, como Sérvia e Turquia.

A União Europeia foi pensada como um espaço comum de circulação, com eliminação do controle de fronteiras para os países participantes. Todavia, os habitantes dos últimos países a entrarem na UE não são ainda membros plenos, o que têm repercussões para a situação dos imigrantes do Leste nos países europeus ocidentais.

As iniciativas recentes de deportação de ciganos romenos e búlgaros pela França, com ameaças em outros países, podem ser entendidas nesse contexto. A situação de “sem domicílio fixo” de boa parte dos ciganos e a alegação de constituírem risco para a ordem pública também aparecem como justificativas. A criminalidade é frequentemente alegada como razão para o estigma da comunidade. Porém, a situação de rejeição parece ser também uma causa para a restrição das opções de trabalho e sobrevivência para os ciganos.

A história mostra que responsabilizar todo um povo, cultura ou etnia, por problemas sociais mais amplos, pode ter consequências graves. Notícias recentes quanto a um “cadastro étnico” que a polícia francesa teria elaborado para os ciganos evocam perigosamente iniciativas semelhantes já mencionadas, e causam temores quanto ao que podem prenunciar.
A situação dos ciganos alerta a todos nós para os riscos da busca dos “culpados mais fáceis”, numa Europa que valoriza a diversidade cultural e tem como um de seus princípios a livre circulação.

Os Ciganos no Brasil
No século XVI, os primeiros ciganos desembarcaram na Colônia, provavelmente ibéricos degredados. Há registros também da presença de ciganos na região das Minas Gerais no século XVIII, em geral acusados de “desordeiros”. No Rio de Janeiro, alguns ciganos enriqueceram com o comércio de escravos.

No século XIX, outros grupos começam a chegar, em meio à política de abertura à imigração europeia. Tidos como indesejáveis pelos oficiais de imigração na maioria dos países, ocultavam sua condição tanto às autoridades dos locais de partida quanto às dos países de chegada. Assim, mesmo sem identificação precisa, nos séculos XIX e XX, o Brasil recebeu ciganos em meio aos fluxos de imigração alemã, italiana e do Leste Europeu.
Essa falta de identificação no processo migratório explica a imprecisão das estimativas atuais quanto ao número de ciganos e descendentes em território brasileiro. Com exceção de alguns grupos no interior do País, atuando como artistas de circo, comerciantes e ferreiros, a comunidade cigana é bem pouco visível na sociedade brasileira.

A recente valorização da identidade cigana, em novelas de tevê, em grupos de música e dança, estimulou alguns a se assumirem ou redescobrir suas “raízes ciganas”, embora o preconceito e as associações negativas ainda persistam. Um exemplo de origem cigana pouco conhecida é o de Juscelino Kubitschek de Oliveira, presidente da República (1956-1961), neto de um imigrante do império austro-húngaro que chegou a Diamantina (MG) em meados do século XIX.

 
OPRÉ ROMA!!!

 
Observando alguns textos e, sobretudo, as absurdas declarações feitas sobre o Povo Cigano em programas de TV, como ocorreu há alguns meses atrás, em que um jornalista, numa praça de Sousa, afirmou que os ciganos dividem-se em cinco grupos, resolvemos abordar o tema.
O Povo Cigano, apesar de usar autodenominações completamente diferentes, distingue pelo menos três grandes grupos. Sim, estamos falando de grupos, porque ciganos decididamente não se dividem em tribos ou clãs...Quem quiser saber mais a respeito basta pedir o excelente trabalho de Frans Moonen: Anticiganismo e Ciganos no Brasil pelo e-mail da CERCI – Centro de Estudos e Resgate da Cultura Cigana: acerci@uol.com.br

Vejamos os três grupos:
- Ciganos Ron ou Roma, que falam a língua romani e são divididos em vários subgrupos
- Ciganos Sinti ou Manouch, que falam sinto
- Ciganos Kalon ou Kalé (ciganos ibéricos) que falam a língua caló

Abaixo, os subgrupos. Quem quiser saber mais consulte o livro Mutation Tsigane, de J.P. Liégeois.

RON
- Kalderásha
- Serbijája (Sérvios)
- minéshti
- Demítro
- Márcovitch
- Papinéshti
- Jonéshti
- Frunkaléshti
- Moldovája (Moldávios)
- Demóni
- Jonikóni
- Poróni
- Grekúrja (Gregos)
- Bedóni
- Kiriléshti
- Shandoróni
- Vúngrika (Húngaros)
- Jonéshti
- Xoraxája ou Xoraxané ou Horahanê (Turcos)
- Lovára
- Churára
- Machwáya
- Boyásha (Ciganos de Circo)


SINTI (ou MANUSH)
- Gáchkane (Alemães)
- Estrekárja (Austríacos)
- Valshtiké (Franceses)
- Piemontákeri (Piemonteses)
- Lombardos
- Marquigianos


KALON ou KALÉ (Ciganos Ibéricos)
- Catalães
- Andaluzes
- Portugueses


Nota:
Enquanto que entre os Ron a classificação em "subgrupos" acontece com base em identificação de tipo ergonímico (denominação que traz origem na profissão tradicionalmente exercida), entre os Sintos e os Kalé os subgrupos são geralmente designados segundo um conceito de natureza toponímica (referindo-se a lugares de assentamento histórico).
Ver mais

 
Minha Querida Barí Xandú....Que saudade
A Você, que nos deixou enquanto dormia, dedicamos a poesia Máquina Breve, de Cecília Meireles, uma kalin poeta.

 Máquina Breve...

 O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
- meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.

Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.

 
 
 

Se alguém lhe perguntar qual é a minoria étnica menos conhecida, e talvez por isso mais odiada e discriminada do Brasil, pode responder sem medo de errar: o Povo Cigano. Para piorar, no Brasil não existe um órgão governamental para tratar especificamente dos assuntos ciganos e nenhuma lei que conceda proteção especial a um povo que por aqui está desde 1574. O Povo Cigano sequer é mencionado na Constituição Federal. O anticiganismo, palavra que ainda não consta em dicionários brasileiros, embora já exista, há algum tempo, em outras línguas, é um fato, filho dileto da Ignorância.
Frans Moonem, em seu livro Anticiganismo e Ciganos no Brasil, conta que numa passeata em Amsterdan, nos anos 90, um menino cigano carregava um cartaz com as seguintes palavras: IGNORÃNCIA gera MEDO, que gera PRECONCEITO. Poderia ter acrescentado que este, por sua vez, gera DISCRIMINAÇÃO e que, portanto, somente acabando primeiro com a ignorância podemos acabar também com a discriminação anticigana.
Opré Romá. Amaro zacono si o lacho drom...
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 
 

 
Imagine um mosaico étnico. Imaginou? Agora imagine a história desse mosaico... Você estará imaginando a história do Povo Cigano.
Segundo a London and Boston- Routledge &Kegan Paul: Gypsy politics ans Social Change, "a grande falha da literatura sobre ciganos, oficial e acadêmica, é a supergeneralização. Observadores tem sido facilmente levados a acreditar que práticas de grupos particulares são universais, com a concomitante sugestão de que qualquer grupo que não siga as mesmas práticas não são verdadeiros ciganos".
Assim sendo, historicizar os ciganos pode levar a uma compreensão pluralizada e excepcionalista. Cuidado! Todo cuidado é pouco!...

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

 

 Durante longos anos a cronologia, datação e efemérides importantes na ciganologia brasileira sempre foram negativas como a proibição do uso da língua e gíria, não permitindo que fossem ensinadas às crianças ciganas, a fim de obter a sua extinção (In Melo Morais Filho, Os ciganos no Brasil), proibição do uso dos trajes ciganos, negócios de bestas e outras imposturas (ler sina) etc.
En
tretanto, depois de 428 anos da chegada do primeiro cigano ao Brasil, no dia 13 de Maio de 2002 o governo brasileiro reconheceu que os ciganos mereciam respeito e o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH II) incluiu (graças aos esforços da Apreci -Associação de Preservação da Cultura Cigana, no Paraná), pequeno texto mencionando o Povo Cigano. Aliás, das 518 propostas instituídas pelo Decreto 4229, apenas 6 tratam do Povo Cigano.

São elas:

- Promover e proteger os direitos humanos e liberdades fundamentais dos ciganos.
- Apoiar a realização de estudos e pesquisas sobre a história, cultura e tradições da comunidade cigana.
- Apoiar projetos educativos que levem em consideração as necessidades especiais das crianças e adolescentes ciganos, bem como estimular a revisão de documentos, dicionários e livros escolares que contenham estereótipos depreciativos com respeito aos ciganos.
- Apoiar a realização de estudos para a criação de cooperativas de trabalho para ciganos.
- Estimular e apoiar as municipalidades nas quais se identifica a presença de comunidades ciganas com vistas ao estabelecimento de áreas de acampamento dotadas de infraestrutura e condições necessárias.
- Sensibilizar as comunidades ciganas para a necessidade de realizar o registro de nascimento dos filhos, assim como apoiar medidas destinadas a garantir o direito de registro de nascimento gratuito para as crianças ciganas

Então...
Nada, mas nada mesmo aconteceu. Ficou no papel...rs

 

 Segundo Frans Moonen, em seu livro Anticiganismo e Ciganos no Brasil, "muitos ciganólogos têm observado que os ciganos Rom, e entre eles em especial os Lovara e os Kalderash, costumam auto classificar-se como ciganos “autênticos”, “verdadeiros”, “nobres”, “aristocratas”, de primeira categoria, sendo todos os outros apenas ciganos “espúrios” ou “falsos” ciganos.
Infelizmente, esta at
itude discriminatória (dos próprios ciganos) é assumida também por muitos gadjé que realizam estudos ou trabalhos práticos entre os ciganos, ou por legisladores ou membros de organizações ciganas e pró-ciganas. Sabendo disto, muitos ciganos se dizem Rom, ou Kalderash, embora sem nunca ter sido. Okely, por exemplo, informa que na Suécia, “ciganos originários da Polônia, sem prévias pretensões de serem Kalderash, adotaram nomes kalderash quando de sua chegada na Suécia porque a estas pessoas é atribuído um status exótico e favorável pela sociedade dominante. De fato, Tattares [nômades não-ciganos] são excluídos de lucrativos programas sociais. Parece que também em outros países da Europa, por exemplo na Bélgica, França, Holanda e Alemanha, grupos ou ‘tribos’ que se apresentam como Rom, Kalderash ou Lovari têm mais probabilidade de serem considerados de origem oriental, indiana, e de receberem status ‘real’, mesmo que só por estudiosos e representantes políticos gadjé” (Okely 1983: 10-11).
Mas como se isso não bastasse, OS CIGANOS AINDA DE DISCRIMINAM MUTUAMENTE também por outro motivo: os ciganos sedentários muitas vezes olham com desprezo para os ciganos nômades que persistem nesta vida “primitiva”, enquanto os nômades acusam os sedentários de terem abandonado as tradições e com isto terem deixado de ser ciganos.
E com isto surgem intermináveis debates, entre os ciganólogos, sobre quem é cigano autêntico e quem não é. Debates, por sinal, estéreis, porque definir quem é e quem não é cigano é, de fato, uma tarefa impossível porque não existem critérios objetivos universalmente aceitos ou aceitáveis.
Ao chegarem na Europa Ocidental, no início do Século XV, os ciganos ainda podiam facilmente ser identificados através de sua aparência física, sendo a característica mais marcante a sua pele escura. Hoje isto já não é mais possível. Apesar da ideologia da endogamia, casamentos com não-ciganos sempre ocorreram, de modo que em muitos países hoje os ciganos fisicamente não se distinguem da população gadjé nacional. Ciganos ‘racialmente puros’ hoje não existem mais em canto algum do mundo, e nunca existiram, porque nunca existiu uma ‘raça’ cigana. Impossível, portanto, identificar os ciganos através de características físicas peculiares ou estabelecer ‘critérios biológicos de ciganidade’.
Classificar como ‘verdadeiros’ ciganos todos aqueles que falam uma língua cigana também não adianta, porque muitos ciganos já não a falam mais e outros a dominam muito mal, ou até já a esqueceram por completo. Muitos autores, de várias partes do mundo, afirmam que mesmo entre si os ciganos costumam falar a língua do país em que vivem e que a língua cigana, na maioria das vezes, costuma ser usada apenas ocasionalmente, quando necessário. San Román, por exemplo, informa que na Espanha, “excluindo os ciganos nômades, poucos conhecem [a língua] caló, e recorrem a ela principalmente na presença de payos [a palavra espanhola para não-ciganos] que desejam enganar, e dos quais querem distinguir-se. (...) [A língua caló] não é tanto um meio de comunicação, mas antes um meio para excluir os payos dos assuntos ciganos. Entre si falam espanhol” (San Roman 1979: 171, 191)."

Quem quiser saber mais peça o livro enviando um e-mail para
acerci@uol.com.br.


 
Não existe no Brasil uma política pública sequer que seja voltada e beneficie os ciganos e as ciganas brasileiros. E estamos aqui desde 1574...
Somente no dia 13 de maio de 2002 é que decidiram que existimos. Mesmo assim, só no papel...rs. Vejamos:
...


13 de maio, 2002 . Até que enfim! Após 428 anos o governo brasileiro reconhece que os ciganos merecem respeito, são cidadãos. O Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH II) inclui (graças aos esforços da Associação de Preservação da Cultura Cigana, no Paraná), pequeno texto sobre este povo. Vamos citar os tópicos relativos a eles para que não se esqueçam:

Ciganos
259. Promover e proteger os direitos humanos e liberdades fundamentais dos ciganos.
260. Apoiar a realização de estudos e pesquisas sobre a história, cultura e tradições da comunidade cigana.
261. Apoiar projetos educativos que levem em consideração as necessidades especiais das crianças e adolescentes ciganos, bem como estimular a revisão de documentos, dicionários e livros escolares que contenham estereótipos depreciativos com respeito aos ciganos.
262. Apoiar a realização de estudos para a criação de cooperativas de trabalho para ciganos.
263. Estimular e apoiar as municipalidades nas quais se identifica a presença de comunidades ciganas com vistas ao estabelecimento de áreas de acampamento dotadas de infraestrutura e condições necessárias.
264. Sensibilizar as comunidades ciganas para a necessidade de realizar o registro de nascimento dos filhos, assim como apoiar medidas destinadas a garantir o direito de registro de nascimento gratuito para as crianças ciganas.

Foi pouco, mas....
E vamos que vamos. Continuamos excluídos apesar do que está no livrinho dos Direitos Humanos. Ufa!

Família Cigana

 
O conceito de família, para o povo cigano, é amplo. Reúne vários casais com os respectivos filhos e diversas gerações; engloba os descendentes (filhos e netos), ascendentes (avós, bisavós) e os colaterais (primos e tios). O nome é o que está nos papéis legais e vale para a sociedade, mas é o apelido (para alguns grupos o chamado nome de sopro), geralmente, que identifica uma pessoa cigana.
O elo mais forte da ligação entre grupos ciganos é a família nuclear. Pelas dificuldades encontradas no decorrer da vida ocorrem muitos óbitos e o povo cigano, com o auxílio da mãe natureza, repõe, surpreendentemente, os entes queridos e assim aumentam a prole.
Muitas famílias reunidas formam uma Kumpania. Não são necessariamente unidas entre si por laços de parentesco, mas todas pertencem ao mesmo grupo ou subgrupo afins.
É preciso que se deixe evidente que o que realmente conta, em primeiro lugar, é a família ou núcleo composto por marido, mulher e filhos.
Porque existem pessoas, ciganas ou não, a delirar...deixemos claro que não existem e nunca existirão reis nem rainhas dos ciganos, assunto predileto de jornalistas levianos e desinformados.
 

 

 O Mapa Cultural Cigano, que agora virou moda rascunhar, nem mesmo o Povo Cigano consegue ler com exatidão. Aliás, nenhum cigano ou cigana conhece todos os detalhes de sua identidade.
Assim sendo, o que pensar de payos (não ciganos) que saem por aí a se proclamarem conhecedores da cultura cigana? Costumam falar dos ciganos de forma genérica, como se existisse apenas uma cultura única, ...
sem conseguirem abordar o caráter diferencial de cada comunidade cigana.
Segundo Rodrigo Correa Teixeira, em sua História dos Ciganos no Brasil, "quando os autores se cansam das individualidades esboçam a unidade (frágil e talvez inexistente) de múltiplos ciganos". Tanto o historiador quanto o ciganólogo escrevem como se todos os ciganos e ciganas fossem apenas um ou uma só (o cigano típico ou o cigano genérico).
Portanto, é preciso considerar que a identidade cigana foi flexibilizada conforme as transformações conjunturais pelas quais passou ou teve que enfrentar.
Resumindo: os ciganos não formam uma totalidade homogênea; não são linguística, econômica, cultural e socialmente iguais.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

 
Aqui no Brasil pouquíssimas famílias Sinti são conhecidas e pouco ou quase nada sabemos sobre as mesmas. Segundo informações fornecidas por Rodrigo Corrêa Teixeira, em seu livro História dos Ciganos no Brasil, dados oficiais de 1819 a 1959 informam que migraram para o Brasil 5,3 milhões de europeus, dos quais 1,7 milhão de portugueses, 1,6 milhão de italianos, 694 mil espanhóis; 257 mil alemães e 125 mil russos. No desembarque registrava-se apenas a nacionalidade do imigrante e não a sua identidade étnica. É mais do que provável que no meio dos quase dois milhões de imigrantes italianos e alemães também tenham vindo ciganos Sinti, principalmente durante e após a II Guerra Mundial.

A título de esclarecimento. Para o Brasil vieram os três grupos ciganos existentes. Kalon, vindos da Península Ibérica; Rom, vindos do leste europeu e Sinti, oriundos da Alemanha, Itália e França.

 
No livro Os Ciganos do Brasil, de Melo Morais Filho (capítulo 7, p. 67) encontramos um estudo psicológico (do povo cigano) que explica:

"As mulheres Kalin, no infortúnio, são sublimes: a sua Fé olha para o infinito e não empalidece; e a sua esperança, resguardando a âncora, não receia o abismo.
Os ciganos não se separam, unem-se; não se divertem, aborrecem-se; não discutem, resmungam, queixam
-se, monologam consigo.
Reconhecidos ao mais fútil benefício, as suas demonstrações revestem-se de aparato declamatório, de expansões largas.
Entre si não se exploram, protegem-se; não se difamam, exaltam-se: ─ são francos, bem-intencionados, caridosos.
As ciganas nunca se separam de seus filhos pequenos, nem se descuidam dos desvalidos, aos quais abrem coração materno. Conhecemos uma que é a Providência de duas criancinhas a quem estremece, e ensina todas as noites a orar por aquele que já está no céu".

 
O Povo Cigano não é, absolutamente, homogêneo. Embora diferentes, mas não desiguais em relação à sociedade brasileira, existe certa desigualdade entre os ciganos. Nem todos são linguística, econômica, cultural e socialmente iguais.
O Povo Cigano vive num mundo em que a sociedade se organiza a partir de perspectivas diferentes das suas. Assim sendo, é necessário absorver o patrimônio cultural do ou
tro (payos) e, de forma nada fácil, viver na intimidade as suas tradições e práticas culturais.
Dessa forma, pessoas de etnia cigana vivem a criar e recriar, continuamente, um aprendizado que lhes proporcione condições necessárias para a sua sobrevivência. Esse movimento em direção às sociedades não ciganas e às estratégias criadas para sobreviver demonstra extraordinária capacidade de flexibilizar e mediar as mais notáveis diferenças culturais.
Bom seria que esse tema fosse debatido durante as reuniões promovidas pelo governo, que fica o tempo todo a devanear sobre ações, nem sempre assertivas, e prováveis políticas públicas jamais efetivadas. Ufa!



Antigamente, as ciganas costumavam ser consideradas bruxas. Em 1427 o bispo de Paris mandou excomungar todos os parisienses que tinham consultado as ciganas. Hoje, os bispos costumam ser um pouco mais tolerantes, e consultar uma cigana não é mais motivo para excomunhão, embora muitos padres e pastores ainda o considerem um pecado. Na realidade, as ciganas fazem nada mais nada menos (embora bem mais barato) do que fazem os psicólogos e psicanalistas nos seus luxuosos consultórios.
Frans Moonen
 
 
A defesa dos direitos e interesses ciganos é difícil e complexa. Infelizmente a bibliografia sobre ciganos no Brasil é ínfima e não passa de alguns ensaios científicos, pois são poucos os antropólogos e outros cientistas a pesquisar os seus usos e costumes.
Os ciganos brasileiros não podem contar com um órgão governamental e uma legislação específica em defesa dos seus direitos e interesses, uma vez que não existem. Ao contrário dos índios, os ciganos não são mencionados na Constituição Federal. É a minoria das minorias, o elo mais frágil da corrente que os atrela aos preconceitos e discriminação no Brasil.
É preocupante o futuro das crianças ciganas brasileiras. Muito.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

 
"Quando dois não-ciganos falam de ciganos, a imagem mais estereotipada que vem à mente deles, no mínimo, é de mulheres com vestes estampadas, esvoaçantes, cabelos trançados, moedas como berenguendém etc., nas esquinas das avenidas e ruas de grandes cidades, chamando as pessoas para leitura da buena-dicha. Esta ainda é a mais aceitável imagem que fazem. Nas outras imagens, os põem num... quadro onde se vê, na melhor das hipóteses, pessoas perigosas que devem ser evitadas. Ora, ciganos não são bicho-papão, não andam assaltando por aí, não traficam, nem roubam criancinhas. Não querem sua casa, nem seus bens. Ciganos são o povo mais pacífico da terra. Não se conhece na história universal um só relato onde ciganos tenham apanhado armas e se voltado contra outros povos. Mas que povo é esse? Na verdade, as origens desse povo são obscuras. Hoje, estudos antropológicos, etnográficos e DNA têm levado os pesquisadores de todos os ramos, das múltiplas ciências, a concordarem que os ciganos vieram da Índia. Por que saíram de lá? Ninguém sabe. Especula-se que seriam as invasões mongólicas, ou dos hunos, ou dos árabes; conjugadas com algum período de longa seca ou de chuva continuada. Mas o certo é que se estabeleceram no Egito [daí o nome egípcios e mais tarde egipcianos, por fim gitanos]".


Texto da Obra de Assede Paiva
CIGANOS, TZIGANOS, GITANOS, BOÊMIOS,ZÍNGAROS... QUEM SÃO ELES?



“Ciganos foram caçados como bestas selvagens, enterrados vivos nos pântanos, suspensos vivos sobre defumadores. Acusados, torturados e condenados. Foram empalados, queimados, esquartejados, decapitados, por crimes que jamais cometeram. Ainda hoje, embora sem torturas, são acusados de tudo de mau que acontece em qualquer cidade. São obrigados a morar em lixeiras, não tem acesso a qualquer benefício/assistência social. É uma luta diuturna pela sobrevivência”.

Assede Paiva - Ciganos na História do Brasil
 
Que o Povo Cigano jamais se acostume à ciganofobia...

Problemas Gerais enfrentados pelos Ciganos Brasileiros

 
PROBLEMAS GERAIS ENFRENTADOS PELOS CIGANOS NO BRASIL
Ge Vitor

• Acessibilidade a documentos de identificação civil obrigatórios. O nomadismo serve como um dos pretextos mais recorrentes, sobretudo nos cartórios, para dificultar e às vezes impedir o registro oficial dos dados pessoais dos ciganos. Ou seja, em termos legais a pessoa cigana - por não portar documentos - não existe. Em assim ...
sendo, há que se considerar que suas práticas de trabalho, moradia e inclusive as comerciais de sobrevivência, sejam adaptadas à sua “falta” de condição civilizatória, estando “naturalmente” fora dos padrões sociais legais. Daí a associação à marginalidade. Outro agravante dessa inexistência documental se revela na inexistência ou inexatidão do número de ciganos existentes no Brasil. Pesquisas aleatórias e não oficiais dão conta de que existem hoje entre 650 mil e 1.2 milhões ciganos, constituindo diversos grupos étnicos distintos. Também são inexatas as informações sobre os ciganos considerados civilizados porque muitos deles, ainda que preservem suas línguas e tradições, não assumem ou foram levados a não assumirem seus traços identitários, em geral, como última condição essencial de civilidade ante as discriminações.
• Acessibilidade a saúde pública. Por consequência dos princípios (a tradição cigana prevê o nascimento dos filhos nas próprias tendas) e do tratamento público indevido, a mãe cigana acaba não tendo acesso ao cartão “oficial” hospitalar onde são registrados os dados preliminares de identificação dos seus filhos. Esse cartão figura obrigatório para outros documentos como a certidão de nascimento, RG, etc. A falta do Cartão os impede legalmente de terem acesso, também, a documentos secundários que lhes dariam direito a utilizarem outros serviços públicos - inclusive os essenciais básicos - como atendimento emergencial em prontos-socorros, vacinação, etc.
• Acessibilidade ao ensino público e permanência na escola. Não raro as crianças ciganas veem negado seu direito de se matricular e frequentar escolas, por causa da sua tradição familiar e das maneiras próprias e peculiares de viver e se relacionar. Não obstante essas dificuldades, a criança cigana quando matriculada, enfrenta ainda outros conflitos relacionados à sua tradição. Embora possuam idioma e dialetos próprios os ciganos tradicionais são considerados ágrafos por não se utilizarem de símbolos gráficos (letras e números) para sua comunicação e para a transmissão de conhecimentos tradicionais, o que geralmente é feito pela prática da oralidade. Faz-se necessário pensar e instituir um modelo ou recorte na política educacional atual que permita atender às especificidades das comunidades ciganas, no que se refere à ortografia e linguística, currículos, materiais didático-pedagógicos e conteúdos programáticos, observando e implementando-se os preceitos da Declaração Mundial sobre Educação para Todos.
• Acessibilidade para instalação de equipamentos e permanência em espaços urbanos. Não existem orientações por parte dos poderes públicos ou gestores dos espaços e da segurança pública, bem como atos legais prevendo e assegurando direito aos ciganos para estacionarem suas caravanas e estabelecerem seus acampamentos provisórios, sem serem molestados por polícias e por autoridades locais. Na maioria dos casos a dificuldade do acesso ao espaço público está claramente associada à discriminação ou à intolerância, dadas as condições precárias oferecidas; à imposições rígidas de comportamento e trânsito social e; a exigências - às vezes abusivas – de alvarás, impostos, taxas, etc.
• Inclusão social e cultural. Os valores culturais são desconhecidos e desrespeitados. Por isso, frequentemente são vítimas de preconceitos. O desconhecimento generalizado sobre as origens, costumes e direitos ciganos, faz com que sejam rotulados e tratados com estereótipos. Ou seja, equivale dizer que, o ser cigano associa-se muitas vezes a sinônimo de marginalidade. Esse ranço histórico além de cultivado é ampliado e agravado, inclusive - pela literatura - em torno de estórias e histórias vividas ou imaginadas. Assim como os judeus, índios e negros, os ciganos sofrem - dia a dia - a discriminação social e cultural.
• Preservação das tradições, das práticas e do patrimônio cultural. Os shows e espetáculos mambembes, a prática de artesanatos tradicionais como ourivesaria e utilitários em metal e cobre, estão desaparecendo frente às realidades já abordadas e comentadas. A livre circulação de espetáculos, referência simbólica da prática teatral brasileira, hoje se vê quase que inviabilizada, seja pela massificação da indústria cultural, seja pela falta de incentivos públicos e privados. As memórias e referências culturais ciganas, tradicionalmente cultivadas e guardadas em baús intocáveis nos interiores das tendas, estão se perdendo por falta de uma política de ações de acessibilidade pública, proteção e catalogação desse rico acervo. No campo literário, não existem publicações sobre os ciganos, quando muito são citados de forma pejorativa. No cinema e na televisão, a situação se repete, sendo – às vezes - suavizada pela beleza e práticas exóticas tradicionais da cultura cigana. Nesse sentido, faz- se urgente o estabelecimento de processos de recuperação e resgate dos conhecimentos, da autoestima, dos saberes e fazeres tradicionais das culturas ciganas.

 
 
Olhar Cigano

"O que impressiona em primeiro lugar num cigano é o seu olhar. Nem o vestuário, nem a tez, nem a língua e os costumes denunciam melhor o cigano do que os seus olhos e o olhar. Os olhos são escuros, sobretudo na mulher, e largamente fendidos. É impossível descrever o olhar. De Dumas, a Merimée, a Garcia Lorca, todos disseram verdade. O brilho do olhar é exaltado, sobretudo nas rapa
rigas. É ao mesmo tempo inquieto, penetrante quando se fixa, móvel, constantemente espiando, pois é a arma mais preciosa do cigano, que lhe permite ver e prever. Reflete, ao mesmo tempo, a doçura e a selvageria, uma imensa bondade e uma crueldade sem limites. Um olhar sempre fugidio, mas apesar disso se fixa aqui e acolá, num certo instante. Um olhar triste e altivo, amoroso e duro. Um olhar cheio de paixão, mas duma paixão contida, retida entre as pálpebras que deixam passar um estilhaço metálico, magnético, saltando de olhos paradoxalmente enevoados, velados, coalhados como mortos."
Olimpio Nunes


 

“Imagine um mundo em que as pessoas não tenham endereço fixo, documentos, conta em banco, carteira de trabalho assinada, nem história. E que a vida dessas pessoas passe despercebida, como se não existisse. Que a única certeza é que nunca faltarão preconceito e ignorância, medo e fascínio, injustiças e alegrias ao longo de sua interminável jornada. Bem vindo ao mundo dos ciganos nômades”.
Luciano Marsiglia em A Saga Cigana.

Ação

 
Cada vez mais se faz necessária uma ação dos ciganos nômades brasileiros: tornarem-se disponíveis para dizer quem são, como pensam, no que acreditam. Só assim o Estado Brasileiro deverá olhar para seus filhos, até então ilegítimos, com o carinho de uma Mãe Gentil.
Mas como? Alguém tem ideia?
Fazemos palestras, participamos de seminários, etc. E daí?
Os políticos brasileiros, infelizmente, ainda nã
o perceberam que seus filhos ilegítimos querem abrigo e, sobretudo, conversar franca, verdadeira e honestamente sobre a fundamental importância de uma real inclusão social. Não pela assimilação e sim pelo respeito à diferença.
Alguém duvida de que o reconhecimento da grande Mãe Gentil pelos seus ciganos será um grande passo histórico para que os filhos do vento, os ciganos nômades, sejam também cidadãos brasileiros?

Liberdade

 
Liberdade, de Cecília Meireles, que era cigana...

"Liberdade, essa palavra
Que o sonho humano alimenta
Que não há ninguém que explique
E ninguém que não entenda"

 


 

"Para as pessoas de etnia cigana o trabalho é uma necessidade, não um objetivo. O trabalho deve proporcionar um tempo livre para tratar de assuntos sociais (encontros, visitas familiares, festas, visitas aos doentes), para desenvolver e manter relações sociais. Isto só pode ser feito se existir independência econômica, um dos elementos mais marcantes da identidade de ciganos e viajantes, e um fator para manter esta identidade. Não estar empregado torna possível não ficar envolvido num mundo estranho e inaceitável, torna possível evitar contato regular com este ambiente.... Por isso o que importa num emprego, é a maneira como pode ser exercido”.
Frans Moonen

Moralidade Cigana

 
O centro da moralidade cigana é a família, pequena ou grande, e para defendê-la criou-se todo um código interno que tutela os direitos do sangue, do matrimônio e da raça. Segundo esse código, é pecado para o cigano: 
  1. Não ajudar outro cigano;
  2. violar os direitos de outro cigano;
  3. faltar ao respeito pelos mais velhos;
  4. faltar à palavra dada entre ciganos;
  5. abandonar os filhos;
  6. a separação conjugal por traição;
  7. a maternidade antes do matrimônio;
  8. falta de pudor no vestir e nos modos de comportar;
  9. furtar em local sagrado;
  10. ofender a memória dos mortos.
Assede Paiva

 
Liberdade
Nós Ciganos só temos uma religião: a liberdade.
Em troca dela renunciamos à riqueza, ao poder, à ciência e à sua glória.
Vivemos cada dia como se fosse o último.
Quando se morre, se deixa tudo: um miserável carroção ou um grande império....

E nós cremos que naquele momento é muito melhor termos sido Ciganos do que reis.
Não pensamos na morte. Não a tememos, eis tudo.
O nosso segredo está em gozar a cada dia as pequenas coisas
que a vida nos oferece e que os outros homens não sabem apreciar:
uma manhã de sol, um banho na nascente,
o olhar de alguém que nos ama.
É difícil entender estas coisas, eu sei. Ciganos se nasce.
Gostamos de caminhar sob as estrelas.
Contam-se coisas estranhas sobre os Ciganos.
Dizem que leem o futuro nas estrelas
e que possuem o filtro do amor.
As pessoas não creem nas coisas que não sabem explicar.
Nós, ao contrário, não procuramos explicar as coisas nas quais cremos.
A nossa é uma vida simples, primitiva.
Basta-nos ter o céu por telhado,
um fogo para nos aquecer
e as nossas canções, quando estamos tristes.

Spatzo (Vittorio Mayer Pasquale)
Spatzo na língua dos Sintos Estrekárja significa "passarinho, pardal", um apelido que nos traz aquele senso de liberdade frequentemente relembrada por este poeta que, no decorrer da sua vida, conheceu momentos de intenso sofrimento. Através de suas poesias, diante das adversidades da sorte, Spatzo demonstra que soube conservar intacta aquela alma cigana, feita de coisas simples e imediatas