Translate

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

 

 Segundo Frans Moonen, em seu livro Anticiganismo e Ciganos no Brasil, "muitos ciganólogos têm observado que os ciganos Rom, e entre eles em especial os Lovara e os Kalderash, costumam auto classificar-se como ciganos “autênticos”, “verdadeiros”, “nobres”, “aristocratas”, de primeira categoria, sendo todos os outros apenas ciganos “espúrios” ou “falsos” ciganos.
Infelizmente, esta at
itude discriminatória (dos próprios ciganos) é assumida também por muitos gadjé que realizam estudos ou trabalhos práticos entre os ciganos, ou por legisladores ou membros de organizações ciganas e pró-ciganas. Sabendo disto, muitos ciganos se dizem Rom, ou Kalderash, embora sem nunca ter sido. Okely, por exemplo, informa que na Suécia, “ciganos originários da Polônia, sem prévias pretensões de serem Kalderash, adotaram nomes kalderash quando de sua chegada na Suécia porque a estas pessoas é atribuído um status exótico e favorável pela sociedade dominante. De fato, Tattares [nômades não-ciganos] são excluídos de lucrativos programas sociais. Parece que também em outros países da Europa, por exemplo na Bélgica, França, Holanda e Alemanha, grupos ou ‘tribos’ que se apresentam como Rom, Kalderash ou Lovari têm mais probabilidade de serem considerados de origem oriental, indiana, e de receberem status ‘real’, mesmo que só por estudiosos e representantes políticos gadjé” (Okely 1983: 10-11).
Mas como se isso não bastasse, OS CIGANOS AINDA DE DISCRIMINAM MUTUAMENTE também por outro motivo: os ciganos sedentários muitas vezes olham com desprezo para os ciganos nômades que persistem nesta vida “primitiva”, enquanto os nômades acusam os sedentários de terem abandonado as tradições e com isto terem deixado de ser ciganos.
E com isto surgem intermináveis debates, entre os ciganólogos, sobre quem é cigano autêntico e quem não é. Debates, por sinal, estéreis, porque definir quem é e quem não é cigano é, de fato, uma tarefa impossível porque não existem critérios objetivos universalmente aceitos ou aceitáveis.
Ao chegarem na Europa Ocidental, no início do Século XV, os ciganos ainda podiam facilmente ser identificados através de sua aparência física, sendo a característica mais marcante a sua pele escura. Hoje isto já não é mais possível. Apesar da ideologia da endogamia, casamentos com não-ciganos sempre ocorreram, de modo que em muitos países hoje os ciganos fisicamente não se distinguem da população gadjé nacional. Ciganos ‘racialmente puros’ hoje não existem mais em canto algum do mundo, e nunca existiram, porque nunca existiu uma ‘raça’ cigana. Impossível, portanto, identificar os ciganos através de características físicas peculiares ou estabelecer ‘critérios biológicos de ciganidade’.
Classificar como ‘verdadeiros’ ciganos todos aqueles que falam uma língua cigana também não adianta, porque muitos ciganos já não a falam mais e outros a dominam muito mal, ou até já a esqueceram por completo. Muitos autores, de várias partes do mundo, afirmam que mesmo entre si os ciganos costumam falar a língua do país em que vivem e que a língua cigana, na maioria das vezes, costuma ser usada apenas ocasionalmente, quando necessário. San Román, por exemplo, informa que na Espanha, “excluindo os ciganos nômades, poucos conhecem [a língua] caló, e recorrem a ela principalmente na presença de payos [a palavra espanhola para não-ciganos] que desejam enganar, e dos quais querem distinguir-se. (...) [A língua caló] não é tanto um meio de comunicação, mas antes um meio para excluir os payos dos assuntos ciganos. Entre si falam espanhol” (San Roman 1979: 171, 191)."

Quem quiser saber mais peça o livro enviando um e-mail para
acerci@uol.com.br.


Nenhum comentário: